Investigadores detetaram microplásticos em todas as amostras de bílis humana analisadas, com concentrações muito superiores nos doentes com cálculos biliares.
Este resultado coloca a poluição por plástico dentro de um fluido essencial para a digestão e para a eliminação de resíduos, levantando novas preocupações sobre os efeitos no organismo ao longo do tempo.
Ocultos na bílis
Nas amostras de bílis recolhidas durante cirurgia à vesícula biliar, as partículas surgiram em todas as amostras avaliadas pela equipa.
No The Tenth Affiliated Hospital of Southern Medical University, no Dongguan People’s Hospital, os investigadores seguiram este sinal em 14 doentes.
Nas pessoas com cálculos biliares, a carga era muito mais elevada, com concentrações medianas próximas de 25.89 microgramas por grama, face a 6.98 no grupo de controlo.
Esta diferença não demonstra que o plástico provoque cálculos, mas torna difícil encarar a bílis como um simples “canal de passagem”.
Porque é que a bílis retém plástico (microplásticos)
A bílis não se limita a ajudar a digerir gorduras; também elimina resíduos através da circulação entero-hepática, um circuito de reciclagem entre o intestino e o fígado.
Essa composição química cria condições para o plástico permanecer por mais tempo, já que os sais biliares e as gorduras conseguem “agarrar” fragmentos que repelem a água.
Quando este fluido engrossa ou perde equilíbrio, o colesterol pode cristalizar e iniciar a acumulação lenta que dá origem aos cálculos.
A presença de plástico nesse contexto é relevante porque pode, ao mesmo tempo, alterar o fluxo, a retenção ou o stress celular local.
Análises por laser detetaram assinaturas de plástico
Entre os seis polímeros principais, o polietileno tereftalato - um plástico comum em garrafas de água e embalagens alimentares - representou 68.05 por cento da carga.
O polietileno, utilizado em sacos e recipientes de plástico, contribuiu com mais 27.11 por cento.
As leituras a laser identificaram depois 32 assinaturas de polímeros, indicando que a bílis apresentava um perfil mais variado do que aquele sugerido apenas pela medição de massa.
A maioria das partículas media entre 20 e 50 micrómetros, e as imagens ao microscópio mostraram formas irregulares, em bastonete e arredondadas, em vez de um único padrão.
Esta diversidade é importante porque fragmentos mais pequenos e assimétricos podem deslocar-se de forma diferente em fluidos e tecidos quando comparados com partículas maiores e mais lisas.
O plástico provoca um efeito de envelhecimento
Para avaliar danos em níveis realistas, a equipa expôs colangiócitos - células que revestem os canais biliares - durante sete dias.
Em vez de provocar uma morte celular evidente, o plástico em baixa dose empurrou essas células para a senescência, um estado duradouro em que deixam de se dividir.
As proteínas associadas ao envelhecimento aumentaram, uma coloração padrão de envelhecimento intensificou-se e as células ficaram bloqueadas na primeira fase de crescimento.
Este padrão sugere disfunção persistente, capaz de lesar tecido mesmo quando muitas células continuam vivas.
No interior dessas células envelhecidas, as mitocôndrias - as estruturas responsáveis pela produção de energia - exibiram os sinais mais claros de perturbação.
A energia celular diminuiu, acumularam-se subprodutos oxidativos prejudiciais e também caiu a carga de membrana que mantém estas estruturas a funcionar.
Uma proteína de fissão promoveu ainda mais fragmentação, deixando o sistema energético da célula mais dividido e menos estável. Quando esse sistema falha, as células dos canais biliares podem entrar num estado de desgaste sem morrer por completo.
A melatonina contraria o efeito
Por isso, a melatonina foi um teste de “resgate” lógico, já que esta hormona costuma proteger mitocôndrias sob stress noutros modelos de doença.
Quando os investigadores a adicionaram às células expostas, a energia celular recuperou, os sinais oxidativos prejudiciais diminuíram e a função mitocondrial manteve-se mais estável.
Também desceram mensageiros inflamatórios - incluindo a interleucina-6 e o fator de necrose tumoral alfa -, sugerindo que as células enviavam menos sinais de alarme.
Ainda assim, trata-se de um resultado de laboratório, não de prova de que suplementos protegem doentes contra a exposição ao plástico.
Fragmentos de plástico para lá da bílis
Amostras anteriores de placenta já tinham demonstrado que fragmentos de plástico conseguem alojar-se longe do intestino.
Um estudo sobre placas carotídeas associou depois o plástico nas artérias a piores desfechos cardiovasculares mais tarde.
Agora, a bílis alarga essa evidência a um fluido que ajuda a transportar resíduos, gorduras e colesterol através do sistema hepático.
Esta localização torna mais difícil descartar o achado como simples contaminação ocasional num único tecido.
Limitações do estudo
A amostra incluiu apenas 14 pessoas, e todas as recolhas foram feitas num único hospital, pelo que a evidência humana continua numa fase inicial.
A dieta, o tipo de trabalho, o uso de água engarrafada e a exposição na área de residência não foram acompanhados com detalhe suficiente para explicar quem transportava mais plástico.
As experiências em células também simplificam a realidade, em que as pessoas contactam com misturas de plásticos ao longo de anos, e não numa exposição controlada única.
Estas lacunas significam que o estudo identifica um sinal de alerta, e não uma causa definitiva de cálculos biliares ou doença biliar.
Próximas linhas de investigação
O passo seguinte passa por amostragem maior e multicêntrica que relacione a carga na bílis com dieta, ocupações, fontes de água e historial de doença.
Estudos em animais também podem esclarecer como as partículas ingeridas sobrevivem à digestão, chegam ao fígado e acabam por se fixar na bílis.
A padronização dos testes será decisiva, porque aqui ferramentas diferentes registaram seis polímeros dominantes ou, alternativamente, 32 assinaturas ao nível das partículas.
Sem um método comum, os investigadores continuarão a discordar sobre o que conta como exposição e o que conta como risco.
Os microplásticos já não parecem confinados ao intestino, porque este estudo coloca-os dentro da bílis e associa-os ao envelhecimento celular.
Isso não prova que a exposição quotidiana cause cálculos biliares, mas traz um fluido corporal pouco considerado para o centro da investigação sobre os efeitos do plástico na saúde.
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