Pessoas que passam grande parte da vida a mergulhar para obter alimento desenvolveram baços invulgarmente grandes, capazes de libertar sangue extra rico em oxigénio durante as descidas.
Esta constatação obriga a olhar para o mergulho em apneia como uma adaptação biológica moldada ao longo de gerações - e não apenas como uma competência adquirida com treino.
Vida debaixo de água: os mergulhadores Sama-Bajau
Ao longo das costas do Sudeste Asiático, os mergulhadores Sama-Bajau continuam a descer a mais de 60 metros com uma só inspiração para recolher alimento no fundo do mar.
Ao medir o tamanho do baço e ao analisar ADN, investigadores da Universidade de Copenhaga verificaram que muitas famílias apresentavam baços excecionalmente grandes.
O facto de até pessoas que não mergulhavam mostrarem o mesmo aumento indicou que a prática diária, por si só, não explicava a diferença.
Esse resultado apontou para uma alteração herdada - e tornou inevitável a pergunta seguinte.
A reserva do baço
O aumento do baço é importante porque, durante um mergulho, este órgão contrai-se e empurra glóbulos vermelhos adicionais para a circulação.
Esse impulso dá mais margem quando não entra ar novo, já que mais células conseguem transportar mais oxigénio.
Herman Pontzer, antropólogo evolucionista da Universidade Duke, recorreu à rotina dos Bajau para ilustrar o quão extremo pode ser esse esforço.
“Eles podiam passar 4 ou 5 horas por dia debaixo de água”, escreveu Pontzer, ao descrever um quotidiano organizado em torno de repetidas recolhas em apneia.
Falar tem um custo
A fala humana também depende de uma configuração arriscada da garganta, em que respirar e engolir disputam o mesmo espaço estreito.
Ao engolir, a laringe, a caixa vocal e os tecidos próximos tentam vedar as vias aéreas antes de o alimento descer.
Mesmo com essa proteção, dados do National Safety Council indicam que o engasgamento matou 5,553 pessoas nos Estados Unidos em 2022.
Para Pontzer, esse risco faz parte do mesmo compromisso evolutivo que tornou possível uma fala flexível.
Nas montanhas, o oxigénio não chega
Em grandes altitudes surge o problema oposto: cada inspiração traz menos oxigénio do que o corpo necessita.
Como resposta, os rins libertam eritropoietina, uma hormona que estimula a produção de novos glóbulos vermelhos, e a medula óssea começa a fabricar mais.
Durante algum tempo, um maior número de células ajuda a estabilizar o fornecimento de oxigénio, mas também torna o sangue mais espesso e difícil de fazer circular.
Esse equilíbrio permite a sobrevivência de visitantes de curto prazo, mas não explica por que razão os habitantes permanentes das alturas diferem tanto entre si.
Duas vias de adaptação em altitude
Nos Andes, muitos habitantes nativos das terras altas desenvolvem pulmões e caixas torácicas maiores, ao mesmo tempo que mantêm contagens elevadas de glóbulos vermelhos. Crescer em ar rarefeito expande o tórax e melhora a transferência de oxigénio para muitos residentes.
Já nos Himalaias, comunidades nativas resolveram a mesma escassez com uma combinação diferente entre sangue, respiração e vasos sanguíneos.
Histórias evolutivas independentes produziram respostas distintas, mostrando que um desafio ambiental não impõe uma única solução biológica.
ADN antigo em humanos atuais
Uma das respostas no Himalaia centra-se no EPAS1, um gene que ajuda a regular a produção de glóbulos vermelhos em altitude.
Em vez de empurrar as contagens sanguíneas para valores cada vez mais altos, esta variante mantém-nas relativamente baixas e diminui o risco de doença.
A evidência genética indica que os Tibetanos provavelmente herdaram esse segmento útil de populações aparentadas com os Denisovanos, após cruzamentos antigos na Ásia.
Assim, um encontro ao acaso há dezenas de milhares de anos acabou por se transformar numa vantagem de sobrevivência no Planalto Tibetano.
Quando o sangue fica demasiado espesso
Nos Andes, a mesma estratégia de aumentar a produção de sangue pode ultrapassar o ponto útil, transformando uma resposta vantajosa em doença.
Quando o sangue fica excessivamente carregado de células, o fluxo torna-se lento e os tecidos começam a perder precisamente o oxigénio que deveriam ganhar.
A forma mais grave desta condição chama-se doença crónica da montanha, uma doença de longa duração que pode surgir após anos a viver em grande altitude.
Este peso ajuda a perceber por que a adaptação não é um simples “melhoramento”: uma solução pode também causar danos ao corpo que procura proteger.
Oxigénio para um feto em crescimento
Antes da idade adulta, a altitude já pode influenciar a sobrevivência através da gravidez, do parto e do fornecimento de oxigénio durante a infância.
Em gravidezes nos Andes, um fluxo sanguíneo uteroplacentário mais forte - o movimento de sangue da mãe para a placenta - ajuda a levar mais oxigénio a um feto em desenvolvimento.
Esse aumento de fluxo parece proteger melhor o peso à nascença do que estadias curtas em altitude, mesmo quando o ar permanece rarefeito.
Por isso, o desenvolvimento precoce conta em duplicado: primeiro, ao moldar o próprio corpo; depois, ao influenciar a eficácia com que os sistemas do adulto lidam com o ambiente.
O corpo humano evolui de forma discreta
Exemplos como os Sama-Bajau e os habitantes Tibetanos das terras altas mostram que a evolução humana não ficou parada num passado distante.
Pressões locais intensas ainda podem favorecer características que ajudam famílias a sobreviver, trabalhar e criar filhos num lugar exigente.
O comportamento pode dar início ao processo, mas ao longo de muitas gerações os genes e o desenvolvimento conseguem fixar algumas vantagens de forma mais profunda no organismo.
A interação entre cultura, ambiente e biologia torna mais fácil compreender a diversidade humana sem a transformar numa hierarquia.
Entre oceanos e montanhas repete-se o mesmo padrão: perante uma falta recorrente de oxigénio, o corpo ajusta estrutura, sangue e comportamento.
O que parece ser um limite humano pode tornar-se uma especialidade local - embora cada ganho continue a ter um custo.
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