Saltar para o conteúdo

Aves que dedicam mais energia à prole envelhecem mais rápido e morrem mais cedo.

Jovem cientista examina uma codorniz com ovos numa bandeja, numa sala de laboratório avícola.

A vida é feita de compensações. Qualquer organismo tem de decidir como aplica a energia limitada de que dispõe. Quando investe mais na reprodução, inevitavelmente tem de cortar noutro lado.

Durante décadas, os cientistas discutiram quão forte é, dentro de uma mesma espécie, esta tensão entre reproduzir e sobreviver. Agora, uma experiência rigorosa com uma ave de pequeno porte traz respostas claras.

Para testar uma ideia simples, mas poderosa, os investigadores trabalharam com codornizes japonesas: se um animal apostar mais na reprodução, envelhece mais depressa e morre mais cedo?

Seleção artificial em codornizes japonesas

Em vez de se limitarem a observar o que acontece na natureza, os cientistas intervieram de forma direta. Alteraram a população através de reprodução seletiva, escolhendo quais os indivíduos que se podiam reproduzir.

Na prática, acasalaram entre si as aves que punham ovos maiores e, em paralelo, acasalaram entre si as aves que punham ovos mais pequenos.

Ao fim de várias gerações, formaram-se dois grupos com diferenças consistentes na energia aplicada à reprodução. A partir daí, os investigadores acompanharam a longevidade destes animais para perceber quanto tempo viviam.

Reprodução e sobrevivência nas aves

A teoria da história de vida propõe que nenhum organismo consegue maximizar tudo ao mesmo tempo. A energia usada para produzir descendência não pode ser usada para reparar e manter o corpo. Daí nasce uma compensação entre reprodução e sobrevivência.

“Todos os seres vivos têm energia e recursos limitados e enfrentam compensações entre prioridades concorrentes”, afirmou a autora principal do estudo, Dra. Barbara Tschirren, do Campus de Penryn da Universidade de Exeter, na Cornualha.

“A teoria evolutiva sugere que existe uma ligação intrínseca entre envelhecimento e esforço reprodutivo – mas isto é bastante difícil de testar.”

“O nosso estudo faz exatamente isso; mostra que há uma variação genética substancial no esforço reprodutivo e no envelhecimento, que essa variação genética está ligada e que pode evoluir rapidamente.”

Eliminar fatores externos

Trabalhos anteriores tiveram, muitas vezes, dificuldade em demonstrar esta relação com clareza dentro de uma espécie. Diferenças ambientais e variação entre indivíduos tornavam complexo separar causa e efeito.

Neste estudo, os investigadores reduziram esses fatores de confusão ao criar todas as aves nas mesmas condições e ao selecionar os indivíduos apenas com base no esforço reprodutivo.

Com este desenho experimental, conseguiram isolar o custo da reprodução em si, em vez de o confundirem com efeitos de alimentação, stress ou habitat.

Codornizes selecionadas pelo investimento em ovos

Os cientistas selecionaram codornizes japonesas e dividiram-nas em dois grupos, escolhidos por colocarem ovos relativamente grandes ou relativamente pequenos.

Como as codornizes não investem muito em cuidados após a eclosão, o principal contributo da mãe está nos recursos que coloca em cada ovo. As crias provenientes de ovos maiores têm maior probabilidade de sobreviver.

Ao longo de várias gerações, a equipa reforçou estas diferenças, criando estratégias reprodutivas bem distintas. As aves do grupo de alto investimento passaram a produzir ovos maiores, enquanto as do grupo de baixo investimento aplicavam menos recursos por ovo.

O estudo também se destaca por usar seleção artificial num vertebrado para testar uma teoria do envelhecimento - algo raramente feito, devido à maior longevidade típica destes animais e às dificuldades práticas associadas.

A reprodução acelera o envelhecimento das aves

Após 5 a 6 gerações, o padrão tornou-se inequívoco. As fêmeas selecionadas para pôr ovos maiores envelheciam mais rapidamente e morriam cerca de 20% mais cedo do que as fêmeas selecionadas para ovos mais pequenos.

Nas gerações finais, as fêmeas que punham ovos grandes viveram, em média, cerca de 595 dias, em comparação com aproximadamente 770 dias nas fêmeas que punham ovos mais pequenos.

Os resultados acompanham os padrões de sobrevivência observados ao longo do estudo: as aves de alto investimento apresentaram menor duração de vida e um declínio associado à idade mais rápido.

A diferença não se deveu a mortes súbitas. Resultou de um envelhecimento mais acelerado. Os cientistas designam este fenómeno por senescência actuarial, isto é, o aumento do risco de morte à medida que a idade avança.

As curvas de sobrevivência evidenciam isto de forma clara. As aves do grupo de alto investimento começam a decair mais cedo, sobretudo nas fases tardias da vida, enquanto as de baixo investimento mantêm níveis de sobrevivência superiores durante mais tempo.

As qualidades individuais também contam

Nem todos os resultados obedeceram a uma lógica linear. Dentro de cada grupo, as aves que produziam ovos maiores, na realidade, tendiam a viver mais tempo.

À primeira vista, isto pode parecer contraditório, mas aponta para diferenças de qualidade individual. Alguns animais são mais eficazes a obter recursos.

Esses indivíduos conseguem suportar simultaneamente uma reprodução mais exigente e uma vida mais longa, o que pode ocultar a compensação biológica quando se analisa apenas a variação natural.

Ao moldar a população através da seleção, os investigadores conseguiram expor a restrição subjacente.

A reprodução elevada mantém-se com a idade

A equipa avaliou ainda como a reprodução se altera com o envelhecimento. O tamanho dos ovos diminuiu à medida que as aves envelheciam, refletindo envelhecimento reprodutivo. No entanto, essa redução foi semelhante nos grupos de alto e baixo investimento.

Isto indica que as aves que investem muito na reprodução continuam a fazê-lo ao longo da vida, mesmo que isso implique um custo na sobrevivência.

A Dra. Tschirren explicou que a compensação central ocorre entre reprodução e auto-manutenção. Estudos anteriores mostraram que aves selecionadas para maior investimento nos ovos podem ter respostas imunitárias mais fracas e menor capacidade de reparar células.

Os machos, no geral, viveram mais tempo, e a duração do período de estudo não foi suficiente para tirar conclusões sólidas sobre a forma como a seleção afetou a longevidade masculina.

No final, a experiência oferece evidência robusta para uma ideia central da biologia: investir mais na descendência acelera o envelhecimento e encurta a vida.

Esta ligação está integrada na forma como os organismos distribuem a energia, e pode evoluir rapidamente quando as condições mudam.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário