Saltar para o conteúdo

Os bebés podem começar a sincronizar-se com o relógio biológico da mãe ainda antes de nascerem.

Mulher grávida sentada na cama a tocar a barriga, com ultrassom e relógio na mesa ao lado.

O corpo de um bebé não espera pelo nascimento para começar a aprender uma rotina. Mesmo dentro do útero, vai, pouco a pouco, começando a seguir um padrão diário.

Uma nova investigação da Universidade de Washington em St. Louis indica que esse padrão se constrói de forma gradual ao longo da gravidez e é orientado pelos hábitos quotidianos da mãe.

O relógio oculto do corpo

Todos os seres humanos funcionam com um sistema natural de marcação do tempo chamado ritmo circadiano. Este mecanismo regula o sono, a energia, a fome e o humor. Segue um ciclo de cerca de 24 horas, influenciado pela alternância entre dia e noite.

Quando este ritmo se mantém consistente, o organismo tende a funcionar melhor. Porém, quando é perturbado, podem surgir problemas. Dormir mal, viver sob stress ou ter horários irregulares pode prejudicar a saúde ao longo do tempo.

Há muito que os cientistas procuram perceber em que fase da vida este relógio começa a funcionar. Trabalhos anteriores produziram resultados pouco consistentes: alguns apontavam para ritmos já muito próximos do parto, enquanto outros encontravam sinais iniciais em tecidos ainda em desenvolvimento.

Este estudo recente ajuda a esclarecer essa incerteza ao demonstrar como o relógio se vai estabelecendo, etapa a etapa, ainda antes do nascimento.

Uma descoberta ainda durante a gestação

Os investigadores observaram que o relógio circadiano começa a operar no útero muito mais cedo do que se pensava. Não se trata de um “interruptor” que liga de repente; pelo contrário, vai-se montando progressivamente durante a gravidez.

“Sabemos que perturbar os ritmos circadianos durante a gravidez pode afetar a forma como o sono e os ritmos diários se desenvolvem nos bebés, e estas perturbações precoces estão associadas a um maior risco de perturbações do humor, como ansiedade e depressão, mais tarde na vida”, afirmou Nikhil Lokesh, primeiro autor do estudo.

Os dados indicam que, à medida que a gestação avança, o relógio do bebé ganha robustez e passa também a alinhar-se mais com o ritmo da mãe.

Como observar um relógio que brilha

Para acompanhar este processo, a equipa recorreu a uma abordagem engenhosa. Trabalhou com ratinhos que tinham uma proteína luminosa associada a um gene do relógio chamado PER2. Este gene é determinante no controlo dos ritmos diários.

Enquanto as crias se desenvolviam dentro do útero, a proteína emitia luz sempre que o relógio estava ativo. Câmaras especiais registavam esse brilho.

Com o avançar da gravidez, a intensidade da luminosidade aumentava. Ao seguir esse sinal, os cientistas conseguiram identificar quando o relógio interno se tornava ativo e de que forma evoluía com o tempo.

Ritmos que se constroem, passo a passo

Os resultados mostraram que, no início da gravidez, o ritmo é fraco ou pouco definido. No entanto, à medida que o desenvolvimento prossegue, torna-se mais forte e mais regular.

Já numa fase mais tardia da gestação, o relógio do bebé começa a exibir padrões diários nítidos. Perto do nascimento, esses padrões tornam-se estáveis e previsíveis.

Os investigadores verificaram ainda que o relógio tende a atingir o pico de atividade no início da noite, de modo semelhante ao ritmo materno. Isto sugere que o relógio do bebé não se desenvolve de forma isolada: aprende o “timing” a partir da mãe.

O papel da placenta no relógio circadiano do bebé

A placenta não serve apenas para fornecer nutrientes e oxigénio. Também contribui para transmitir sinais de marcação temporal da mãe para o bebé.

O estudo concluiu que tanto a componente materna como a componente fetal da placenta apresentam os seus próprios ritmos. Esses ritmos alteram-se ao longo da gravidez e ajudam a coordenar o tempo biológico entre mãe e bebé.

Os cientistas observaram até padrões ondulantes de atividade do relógio a deslocarem-se através da placenta, das camadas maternas para as fetais. Isto aponta para uma comunicação ativa dentro do útero.

Hormonas que funcionam como mensageiras

As hormonas têm um papel central na definição do relógio do bebé. Os glucocorticoides, hormonas relacionadas com o stress, sobem e descem ao longo do dia no organismo materno.

Essas hormonas atravessam a placenta e funcionam como sinais temporais para o bebé. Quando os investigadores administraram doses adicionais destas hormonas a ratinhos grávidos, os relógios das crias ajustaram-se mais rapidamente.

O momento da administração também se revelou decisivo. Se os glucocorticoides eram dados em horários diferentes, o ritmo do bebé deslocava-se de maneiras distintas. Ou seja, o “quando” é tão importante quanto a própria hormona.

O que acontece quando os ritmos não se formam

A equipa identificou ainda um dado relevante sobre o desenvolvimento. Em gestações em que o relógio do bebé não se estabeleceu corretamente, as gravidezes falharam com maior frequência.

“Ainda não podemos dizer se a ausência de ritmos contribui para problemas de desenvolvimento ou se apenas os reflete”, disse Lokesh.

Embora a causa exata não esteja esclarecida, esta associação sugere que um ritmo circadiano funcional pode ser importante para um crescimento saudável antes do nascimento.

Porque é que a vida moderna é relevante

Os estilos de vida atuais perturbam frequentemente os ritmos naturais. Luz artificial, trabalho por turnos noturnos e padrões de sono irregulares podem desajustar o relógio do corpo.

Durante a gravidez, isto ganha ainda mais importância. Alterações no ritmo materno podem modificar os sinais que chegam ao bebé.

A investigação indica que perturbações deste tipo podem aumentar riscos como maus resultados na gravidez ou problemas de saúde a longo prazo nas crianças.

Um relógio que influencia a vida

Este trabalho altera a perspetiva sobre o início da vida. O relógio do corpo não começa no nascimento: começa a formar-se no útero e fortalece-se gradualmente.

O organismo da mãe orienta este processo através de ritmos diários e hormonas, e a própria placenta participa ativamente na transmissão desses sinais.

“Compreender quando e como o relógio do corpo começa a funcionar ajuda os cientistas a identificar janelas sensíveis do desenvolvimento em que a perturbação circadiana pode ter efeitos duradouros”, afirmou Lokesh.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário