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Os neandertais reutilizavam cascas de tartaruga de forma inteligente e criativa.

Crianças sentadas na praia a brincar com tartarugas e objetos naturais perto de um lago.

Um lago tranquilo na Europa antiga pode não parecer um cenário fértil em ideias engenhosas. Ainda assim, investigação recente mostra que os neandertais recorriam até a animais pequenos de formas inesperadas.

Estes humanos antigos faziam bem mais do que caçar para comer. Observavam o que os rodeava, ajustavam estratégias e aproveitavam a natureza de maneira criativa - algo que continua a surpreender os cientistas.

Agora, novos dados vindos de um local emblemático na Alemanha acrescentam mais uma peça a este retrato.

Um vislumbre da vida antiga em Neumark Nord

Os investigadores analisaram restos de tartaruga encontrados em Neumark Nord, na atual Saxónia-Anhalt, Alemanha. O local oferece uma visão rara e muito detalhada da vida neandertal durante um período quente conhecido como o Último Interglaciar.

O trabalho foi conduzido por uma equipa da Johannes Gutenberg University Mainz, do MONREPOS e da Universidade de Leiden.

Ao contrário do que acontece em muitos outros sítios arqueológicos, Neumark Nord fornece aquilo a que os cientistas chamam um “instantâneo” da vida num único lugar, ao longo de um intervalo curto.

Isso permite perceber com mais nitidez as tarefas do quotidiano, sem misturar evidências de épocas e contextos diferentes.

O estudo centrou-se em tartarugas-de-lagoa europeias, pequenos animais associados a lagos e zonas húmidas. Trata-se da primeira evidência inequívoca de que os neandertais exploraram tartarugas em regiões a norte dos Alpes.

Neandertais e carapaças de tartaruga

Para compreender o que aconteceu com estes animais, os cientistas examinaram 92 fragmentos de carapaça, recorrendo a ferramentas modernas como digitalização 3D de alta resolução. Em muitas peças, surgiam marcas de corte no lado interior da carapaça, sinal de um processamento cuidado e tecnicamente competente.

Os neandertais retiravam os membros, separavam partes do corpo e limpavam as carapaças de forma minuciosa.

Algumas marcas concentram-se junto das articulações, sugerindo uma desmontagem faseada, passo a passo. Outras indicam a remoção de tecidos moles e órgãos.

“Os nossos dados fornecem a primeira evidência de que os neandertais também caçavam e processavam tartarugas a norte dos Alpes, para lá da região mediterrânica”, afirmou Sabine Gaudzinski-Windheuser, primeira autora do estudo, da Johannes Gutenberg University.

A atenção dedicada à limpeza das carapaças aponta para um detalhe relevante: estas não foram simplesmente descartadas. É provável que os neandertais as tenham reutilizado.

Mais do que uma simples fonte de alimento

À primeira vista, seria natural assumir que as tartarugas foram caçadas sobretudo para consumo. No entanto, o conjunto de evidências sugere outra leitura.

Em Neumark Nord existem milhares de restos de animais, incluindo veados, bovinos e até elefantes enormes. Estes ofereciam muito mais carne e energia do que tartarugas pequenas.

“Podemos praticamente excluir isso, dada a abundância de restos de grandes presas com elevado retorno energético neste local. Muito provavelmente existia um excedente calórico completo”, disse Gaudzinski-Windheuser.

Ou seja, alimento não parecia faltar. Então, por que razão investir tempo a capturar tartarugas?

Os cientistas avançam hipóteses alternativas: poderiam ter sido apanhadas pelo sabor, por curiosidade ou até por possíveis benefícios para a saúde. Em períodos posteriores da história humana, as tartarugas-de-lagoa foram usadas em práticas medicinais, associadas sobretudo ao vigor e à saúde pulmonar.

Tartarugas-de-lagoa e crianças neandertais

As tartarugas-de-lagoa europeias são pequenas e lentas, o que as torna fáceis de capturar. Por isso, os investigadores consideram plausível que crianças participassem nesta atividade.

A ideia acrescenta uma dimensão humana ao cenário: membros mais novos do grupo poderiam desempenhar tarefas de caça simples junto à água, treinando competências e contribuindo de forma modesta para o quotidiano.

“Com um peso de cerca de um quilograma, as tartarugas-de-lagoa têm um valor nutricional comparativamente baixo”, disse Gaudzinski-Windheuser.

“No entanto, são relativamente fáceis de capturar e podem, por isso, ter sido caçadas por crianças. As suas carapaças podem então ter sido transformadas em ferramentas.”

Este quadro sugere aprendizagem, partilha e cooperação como elementos presentes na vida neandertal.

Carapaças transformadas em ferramentas úteis

O indício mais forte a favor da reutilização está no modo como as carapaças foram tratadas. Os cientistas observaram que a superfície interna foi cuidadosamente raspada, o que aponta para uma preparação deliberada para novo uso.

A equipa propõe que as carapaças funcionassem como pequenos recipientes ou utensílios semelhantes a conchas de recolha. Numa área do sítio, apareceram carapaças perto de zonas onde os neandertais processavam gordura animal.

Este padrão reforça a hipótese de que serviam em tarefas diárias, como recolher, transportar ou dosear materiais.

Este comportamento revela planeamento e inventividade. Em vez de desperdiçarem recursos, os neandertais encontravam utilidade mesmo em materiais modestos, como a carapaça de uma tartaruga pequena.

Neandertais com uma dieta muito diversificada

O estudo também sublinha a variedade alimentar dos neandertais. Em Neumark Nord, há evidências de consumo de animais de todas as dimensões: desde tartarugas pequenas com cerca de um quilograma até elefantes gigantes com mais de dez toneladas.

Além disso, os neandertais também comiam plantas, frutos secos e fruta. Restos de avelãs, bolotas e bagas indicam que os alimentos vegetais tinham um peso relevante.

Esta amplitude alimentar aponta para flexibilidade. Os neandertais ajustavam-se ao ambiente e exploravam múltiplos recursos, sem depender de um único tipo de alimento.

Uma imagem mais inteligente dos neandertais

Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que os neandertais eram caçadores simples. A investigação atual contraria essa visão.

“Os nossos resultados atuais lançam nova luz sobre a flexibilidade ecológica e as complexas estratégias de sobrevivência dos neandertais, que iam muito para além da simples maximização calórica”, afirmou Gaudzinski-Windheuser.

Os neandertais planeavam ações, aplicavam ferramentas de forma inteligente e tiravam partido tanto de animais grandes como de pequenos. A vida junto aos lagos de Neumark Nord não se resumia a sobreviver: envolvia compreender o meio e aproveitá-lo ao máximo.

Esta descoberta lembra-nos que a inteligência tem raízes profundas. Mesmo há milhares de anos, os humanos encontravam formas criativas de viver, aprender e adaptar-se.

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