Algumas das cerejeiras do Japão já não conseguem chegar à plena floração e, após invernos invulgarmente amenos, há exibições inteiras que falham, de acordo com uma nova investigação.
O estudo propõe uma nova forma de olhar para a primavera: não como uma estação que chega mais cedo, mas como uma estação enfraquecida - em que o aquecimento pode, de forma quase silenciosa, apagar o próprio espectáculo.
Onde começa o desvanecimento das cerejeiras de Tóquio
Em Kagoshima, na ilha de Kyushu - a principal ilha do sudoeste do Japão - as cerejeiras de Tóquio ainda florescem, mas muitas já não ganham volume.
Toshio Katsuki examinou décadas de registos do Forestry and Forest Products Research Institute do Japão.
Os resultados indicaram que as condições mais quentes do sul levam directamente a estas florações diminuídas.
Nos mesmos locais, as flores surgiram mais tarde do que seria esperado e abriram de forma irregular, deixando falhas onde antes a cor densa se estendia por árvores inteiras.
Uma floração incompleta e desigual aponta para uma perturbação mais profunda na forma como as árvores reagem à mudança sazonal - e reforça a necessidade de perceber o que o inverno já não está a fornecer.
Os gomos dependem do arrefecimento invernal
As cerejeiras precisam de arrefecimento invernal: um longo período de frio sazonal, antes de os dias mais quentes conseguirem desbloquear uma resposta forte na primavera.
Sem esse “reinício”, os gomos não completam a fase de repouso, e o calor primaveril chega antes de muitas flores estarem prontas.
O resultado é um sinal contraditório dentro da árvore: alguns gomos abrem tarde, outros ficam estagnados e outros simplesmente caem.
Isto ajuda a perceber porque é que invernos mais quentes podem apagar o próprio espectáculo que, em tempos, parecia ser intensificado por primaveras mais quentes.
Mudanças climáticas e falhas de floração
Em grande parte do Japão, o aquecimento apareceu primeiro nas cerejeiras de Tóquio como uma primavera mais precoce, não como uma primavera falhada.
Em 2009, registos japoneses de longa duração já tinham consolidado as flores como um sinal climático, porque temperaturas mais elevadas continuavam a antecipar as exibições de primavera.
Agora, no sul do Japão, essa regra deixa de se verificar: a falta de frio no inverno atrasa a floração, mesmo quando a própria primavera é quente.
A mudança é relevante para lá de uma ilha, porque mostra que o impacto climático pode manifestar-se como falha - e não apenas como antecipação.
A plena floração é mais difícil de prever
Os calendários de festivais giram em torno da plena floração, o momento em que 80% das flores estão abertas, porque é quando a exibição parece completa.
Quando o frio do inverno é insuficiente, essa “corrida” sincronizada desagrega-se e o intervalo entre as primeiras flores e a plena floração torna-se mais longo.
Em locais mais frios, as árvores costumavam atingir esse pico em cinco a nove dias, mas em locais mais amenos o processo estendia-se muitas vezes muito para além disso.
Em alguns anos, no sul, nem sequer se atingiu o limiar oficial, o que torna a data do festival mais difícil de prever.
Gomos que falham
O atraso foi apenas uma parte do problema, porque após invernos amenos muitos gomos nem chegaram a abrir.
Em 2024, em 12 locais, as taxas de abertura mantiveram-se entre 68% e 98% acima do limiar de frio e, depois, colapsaram abaixo dele.
Num local mais quente em Kagoshima, só 53% dos gomos florais abriram, enquanto um local comparativo mais fresco atingiu 98%.
Os gomos de folhas também foram afectados e, com menos folhas, houve menos energia disponível para as flores do ano seguinte.
Custo económico e peso emocional
A observação das flores tem moldado a primavera no Japão há mais de 1.000 anos - unindo parques, viagens e rituais familiares.
Quando a floração fica mais rala ou desliza para mais tarde, hotéis, restaurantes e festivais locais perdem o breve pico de procura em que contam.
“ Its loss would not only cause economic damage, but also deeply harm people’s spirits,” disse Katsuki.
Esse alerta dá peso emocional aos resultados, porque a questão vai muito além da paisagem ou da despesa turística.
O problema pode avançar para norte
O que hoje é um problema do sul pode deslocar-se para norte à medida que o Japão aquece, porque os invernos “seguros” podem deixar de fornecer frio suficiente.
Os investigadores assinalaram Quioto, Tóquio e Osaka como locais onde invernos mais amenos poderão, com o tempo, enfraquecer as exibições famosas.
Apontaram também outros destinos populares de observação, incluindo o sul da Coreia do Sul e Washington, D.C., como futuros pontos de pressão.
Este mapa mais amplo transforma um problema local de floração num aviso para cidades que construíram a primavera em torno de uma única árvore.
Espécies que se desenvolvem em condições mais quentes
Manter os festivais vivos poderá exigir a plantação de cerejeiras diferentes - e não apenas tentar adivinhar datas de floração com maior precisão.
Os investigadores sugeriram árvores com menores necessidades de frio, porque conseguem completar o repouso de inverno antes de as condições mais quentes interromperem o desenvolvimento.
Um candidato vem do sul do Japão, onde a espécie de cerejeira Cerasus jamasakura cresce naturalmente em condições mais quentes.
Qualquer substituição mudaria o aspecto dos parques familiares, e é precisamente por isso que as cidades precisam de tempo para planear.
Porque é que os registos contínuos são importantes
As previsões de floração no Japão assentam num registo nacional que torna esta mudança visível já hoje.
Desde 1953, a Japan Meteorological Agency tem registado a floração e a plena floração em árvores de observação padronizadas.
Essa continuidade permitiu aos investigadores comparar o Kagoshima mais quente com o Kumamoto mais fresco, a cerca de 140 km a norte, e detectar uma inversão.
Os mesmos registos podem agora ajudar os parques a decidir onde as cerejeiras clássicas ainda funcionam e onde a adaptação tem de começar.
As cerejeiras do Japão estão a mostrar que as mudanças climáticas não apenas adiantam a primavera: também a podem fragmentar. O que acontecer a seguir dependerá da rapidez com que os invernos aquecem e de como as cidades se adaptam.
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