Saltar para o conteúdo

Conservante alimentar comum associado a suicídios entre jovens.

Duas pessoas sentadas à mesa com medicamentos, telemóvel, chá e portátil aberto numa página de texto.

Os padrões de suicídio nem sempre se alteram de forma evidente. Há mudanças que passam despercebidas até que uma investigação rigorosa as torne visíveis.

Um estudo recente chama a atenção para uma dessas mudanças no Reino Unido, apontando para uma tendência crescente associada a um composto químico que muitas pessoas encaram como comum e inofensivo.

A investigação centra-se no nitrito de sódio e no nitrato. Estas substâncias são usadas com frequência na conservação de alimentos e em processos industriais. Quando ingeridas em grandes quantidades, perturbam a forma como o sangue transporta oxigénio.

Isso pode provocar consequências rápidas e fatais. Os resultados mostram como a facilidade de acesso a estas substâncias, combinada com informação disponível na Internet, pode influenciar comportamentos nocivos.

Consumo em quantidades perigosas (nitrito de sódio e nitrato)

Cientistas da Queen Mary University of London analisaram amostras post-mortem ao longo de cinco anos. As amostras vieram do único laboratório do Reino Unido que testa nitrito de sódio e nitrato em casos suspeitos de suicídio.

Entre março de 2019 e agosto de 2024, o laboratório recebeu 201 casos. Destes, 164 tinham autorização completa para uma análise detalhada.

Os dados revelaram um padrão inequívoco. Na maioria dos casos, as concentrações de nitrito de sódio ou nitrato no organismo estavam muito acima do que seria possível atribuir à alimentação. Isto confirma que estas substâncias foram consumidas em quantidades perigosas.

“Este é um tema extremamente difícil de abordar, e reconhecemos o impacto que isto pode ter em todas as pessoas afetadas pelo suicídio”, afirmou a Professora Amrita Ahluwalia, investigadora principal do estudo.

Casos a aumentar ano após ano

Os números apontam para um aumento alarmante. Em 87 percent dos casos analisados, os níveis de nitrito de sódio ou nitrato eram cerca de cem vezes superiores ao normal. Isto sugere uso intencional, e não exposição acidental.

A tendência também indica crescimento consistente ao longo do tempo. Todos os anos registaram mais casos do que o anterior. Isto sugere que o problema não está a abrandar; pelo contrário, está a tornar-se mais disseminado.

“Em conjunto, estas conclusões estabelecem de forma inequívoca que o uso de nitrito de sódio no Reino Unido como método de suicídio é simultaneamente substancial e preocupante”, escrevem os investigadores.

Homens jovens são os mais afetados pelo suicídio

O estudo identifica um padrão demográfico claro. 68 percent dos casos envolviam homens. A idade mediana era de apenas 28 anos.

A maioria das ocorrências estava concentrada em faixas etárias mais jovens, incluindo a Geração Z e a Geração do Milénio. Em conjunto, representaram 71 percent do total. Uma fração pequena, mas inquietante, envolveu menores com menos de 18 anos.

Adultos mais velhos, que muitas vezes são vistos como um grupo de risco mais elevado, surgiram com menos frequência neste conjunto de dados. Esta alteração sugere que métodos mais recentes estão a chegar com maior eficácia às pessoas mais jovens.

Os investigadores consideram que a exposição na Internet tem um papel central. Pessoas mais jovens participam mais em ambientes digitais e, por isso, têm maior probabilidade de encontrar fóruns e conteúdos que descrevem métodos nocivos.

O papel dos espaços na Internet

A Internet alterou a forma como a informação circula. Embora facilite apoio e ligação, também permite que conteúdos prejudiciais se espalhem.

O estudo aponta para material na Internet que partilha informação detalhada sobre a utilização de nitrito de sódio. Parte desse conteúdo aparece sob a aparência de discussão sobre saúde mental, enquanto outras publicações promovem abertamente ações perigosas.

Já existiram ações legais associadas a este problema. No Canadá, as autoridades acusaram uma pessoa ligada a várias mortes através de uma operação na Internet.

Isto demonstra como as plataformas digitais podem ultrapassar fronteiras e influenciar comportamentos à escala global.

Muitas pessoas jovens têm facilidade em navegar nestes espaços, o que aumenta a exposição tanto a informação útil como a informação nociva.

Políticas para reduzir o risco de suicídio

Os resultados sugerem que medidas de política pública podem ter um impacto importante na prevenção. Há um precedente claro em investigação anterior.

Quando alguns países limitaram o acesso a pesticidas altamente perigosos, as taxas de suicídio diminuíram de forma significativa.

O nitrito de sódio tem utilidade limitada para o público em geral fora da produção alimentar em grande escala. Isso torna-o um possível alvo para restrições semelhantes. Reduzir a acessibilidade pode diminuir a probabilidade de uso indevido.

Esta abordagem não resolve todos os problemas de saúde mental. Ainda assim, elimina uma opção específica e muito perigosa. A evidência indica que reduzir o acesso a meios letais pode salvar vidas.

Um antídoto pode aumentar a sobrevivência

O estudo também destaca uma resposta clínica. Quando há assistência rápida após a ingestão de nitrito de sódio, a sobrevivência é possível.

O tratamento principal é um antídoto chamado cloreto de metiltionínio, também conhecido como azul de metileno.

Trata-se de um tratamento simples e de baixo custo. Um projecto-piloto no Reino Unido testou a sua utilização em ambulâncias. Em nove casos suspeitos, quatro doentes sobreviveram tempo suficiente para chegar ao hospital. Três sobreviveram a longo prazo.

Alargar o acesso a este antídoto pode mudar os desfechos. O que, de outra forma, poderia terminar em morte pode passar a ser uma emergência tratável.

Passos urgentes necessários agora

Os investigadores defendem duas medidas principais. Em primeiro lugar, decisores políticos devem ponderar restringir o acesso do público ao nitrito de sódio, seguindo o modelo bem-sucedido aplicado aos pesticidas.

Em segundo lugar, os serviços de emergência deveriam transportar o antídoto de forma ampla em todo o Reino Unido.

“O que a nossa investigação mostra é profundamente perturbador. Mas deixa claro por que razão são necessários passos urgentes para regular o acesso a este químico e para reduzir a disseminação de informação nociva sobre o mesmo na Internet”, disse Ahluwalia.

Ambas as medidas são práticas e custo-eficazes. Não exigem alterações em grande escala nos sistemas de saúde. Ainda assim, podem ter um impacto relevante.

Padrões de suicídio em mudança

Este estudo mostra como os padrões de dano podem evoluir rapidamente. Um método que era raro há pouco tempo tornou-se mais frequente em poucos anos. Ao mesmo tempo, políticas e sensibilização tendem a demorar mais a acompanhar.

As conclusões também sublinham a importância de compreender como os ambientes digitais influenciam resultados no mundo real. Para pessoas mais jovens, sobretudo homens jovens, esta ligação é clara e urgente.

Intervir cedo pode fazer a diferença. Limitar o acesso, reforçar a resposta de emergência e enfrentar conteúdos nocivos na Internet pode reduzir o risco. Cada medida aumenta a possibilidade de prevenir perdas e de apoiar quem precisa.

Se está a passar por dificuldades, existe ajuda gratuita e confidencial. No Reino Unido, pode ligar para os Samaritans através do 116 123. Nos Estados Unidos, pode ligar ou enviar mensagem para 988. Para outros países, visite findahelpline.com.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário