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As iscas dos tamboris evoluíram ao longo de milhões de anos, tornando-se ferramentas luminosas essenciais para a sobrevivência.

Peixe laranja com luz verde na boca a nadar no oceano, acompanhado por um submarino e objetos no fundo marinho.

Nas águas mais sombrias do oceano, os peixes-pescadores recorrem a uma das ferramentas mais estranhas da natureza: um isco luminoso que lhes pende à frente da boca, como se fosse uma presa em oferta.

Durante muito tempo, os cientistas assumiram que esse “isqueiro” tinha um único objectivo - capturar alimento. No entanto, investigação recente indica que a explicação é bem mais intrincada.

Na verdade, o isco do peixe-pescador nem sequer começou por ser luz. A sua evolução pode ter ajudado estes peixes a caçar, a comunicar e até a encontrar parceiros num dos ambientes mais extremos do planeta.

As primeiras etapas do isco

Em mais de 100 espécies de peixe-pescador preservadas em frascos e tabuleiros de museu, o próprio isco ainda guarda as marcas dessa transformação.

Ao decifrarem esse registo, investigadores da University of Kansas (KU) descreveram uma versão inicial do isco que funcionava apenas através do movimento.

O brilho surgiu mais tarde, num ramo de águas profundas em que o isco ganhou uma função adicional sem perder a anterior.

E essa segunda função levanta a próxima questão: assim que a luz entra na história, o isco passa a ter de ser entendido tanto à luz da predação como da reprodução.

Quando o isco do peixe-pescador começou a brilhar

Muito depois, um ramo de mar profundo passou a ocupar águas de oceano aberto, onde a escuridão torna um isco luminoso muito mais vantajoso.

Nesse grupo, os iscos brilhantes surgiram entre 34 e 23 milhões de anos, depois de os antepassados terem deixado o fundo do mar.

A ideia tradicional sustenta há muito que esta luz evoluiu para atrair presas. Porém, a cronologia sugere um segundo papel, uma vez que o mesmo sinal também poderia ajudar parceiros raros a encontrarem-se no oceano vasto e escuro.

Trabalhos anteriores sobre peixes de profundidade já associaram sinais luminosos característicos a uma formação mais rápida de novas espécies.

Estas observações enquadram os peixes-pescadores nesse padrão: os grupos com brilho diversificaram-se em mais espécies do que aqueles que dependem apenas de movimento ou de cheiro.

Em muitas formas de profundidade, os machos apresentam narizes e olhos desproporcionadamente grandes, o que é consistente com a hipótese de as fêmeas “anunciarem” com luz. Esse emparelhamento entre exibição e detecção pode contribuir para separar populações, dando à evolução mais oportunidades para gerar novas espécies.

O jogo dos aromas entrou em cena

Os iscos químicos terão aparecido pelo menos duas vezes: primeiro, nos peixes-morcego há cerca de 49 milhões de anos e, mais tarde, num peixe-sapo há aproximadamente 5 milhões de anos.

Nos peixes-morcego, o isco permanece dentro do crânio e pode ser projectado para fora, libertando substâncias químicas em direcção à areia, onde presas enterradas ficam à espera.

Este mecanismo favorece amêijoas, vermes e outros invertebrados que seguem trilhos químicos ténues, em vez de perseguirem alvos em movimento.

Os peixes-sapo aplicam a mesma lógica nas correntes oceânicas, onde o odor pode derivar até à presa antes de a emboscada começar.

A ligação entre alcance e movimento do isco

Nas espécies comparadas pela equipa, os iscos luminosos eram cerca de três vezes mais compridos e apresentavam maior variabilidade do que os iscos que dependem apenas do movimento.

Ao alongar-se, a luz fica projectada mais à frente da boca, o que permite ao peixe manter-se mais escuro enquanto continua a atrair presas para a distância certa.

Algumas famílias de mar profundo estenderam o isco de tal forma que a ponta brilhante podia ficar bem para lá do próprio corpo do peixe. Esse grande alcance resolvia um problema, mas criava outro: uma presa que agarrasse a ponta ainda podia escapar antes do ataque.

A amplitude do movimento do isco variou entre arcos curtos e oscilações de cerca de 230 graus, dependendo do desenho do corpo e do habitat. Iscos curtos e médios tendiam a permitir movimentos mais amplos, fazendo o “isco” passar perto da boca imediatamente antes do golpe.

Já os iscos muito longos, muitas vezes, moviam-se menos. Assim, alguns predadores de profundidade poderão depender mais de rotações do corpo ou até de natação invertida. Este compromisso ajuda a perceber por que motivo forma e movimento do isco evoluíram em conjunto, e não como características isoladas.

Os riscos de brilhar no escuro

O brilho é frequentemente produzido por simbiontes bacterianos - microrganismos parceiros que vivem no interior do isco.

Tudo indica que esses micróbios provêm da água do mar e não são transmitidos directamente pelas mães, apesar de os seus genomas serem invulgarmente reduzidos.

Ao manter a luz projectada à frente, o peixe consegue “anunciar” o isco sem iluminar o próprio corpo. Ainda assim, qualquer sinal intenso no oceano profundo pode atrair atenções indesejadas, o que ajuda a explicar por que razão os desenhos do isco variam tanto.

O que os exemplares preservados permitem descobrir

A maioria das espécies de peixe-pescador nunca foi observada a caçar em directo, sobretudo as formas mais profundas, que raramente cruzam câmaras ou submersíveis.

As colecções de museu tornaram este trabalho possível porque, mesmo preservados, os espécimes conservam ossos, articulações e estruturas do isco essenciais para análise.

Os fósseis ajudaram, depois, a situar essas alterações no tempo, indicando que o movimento veio primeiro e que o brilho surgiu mais tarde.

Embora este método não permita ver exactamente como um peixe vivo movimenta o isco, consegue limitar as hipóteses e orientar observações futuras.

Mistérios do peixe-pescador ainda por resolver

Um dos maiores enigmas envolve os machos de peixe-pescador de profundidade, que precisam de localizar fêmeas através de águas imensas, escuras e com baixa densidade de indivíduos. Os investigadores ainda não sabem até que ponto os machos dependem da luz, do cheiro ou de uma combinação variável de ambos.

“Os peixes-sapo provavelmente têm uma atracção química mais difundida”, afirmou o autor principal do estudo, Alex Maile, doutorando na KU, apontando um indício de que as provas disponíveis continuam incompletas.

Até que as observações de animais vivos melhorem, os papéis ocultos do isco - tanto no cortejo como na caça - deverão continuar a ser um dos mistérios mais teimosos do mar profundo.

Ao longo da história dos peixes-pescadores, esse isco - uma espinha modificada de uma barbatana - tornou-se muito mais do que uma simples haste. Transformou-se em isco móvel, em dispensador de odores e em sinal luminoso, com cada função moldada pelo ambiente.

Novas imagens do mar profundo e estudos mais próximos de peixes vivos deverão ajudar a revelar que partes desta história ainda permanecem escondidas debaixo de água.

Crédito da imagem: Matthew Davis

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