Passa tempo com amigos, partilha refeições em família e senta-se perto de pessoas de quem gosta. À primeira vista, são momentos comuns; no entanto, pode estar a ocorrer algo mais profundo. A cada encontro, o seu organismo pode estar a transformar-se.
Investigadores da Universidade de Anglia Oriental descobriram que a vida social consegue moldar as bactérias que vivem no intestino. Esta descoberta acrescenta uma nova dimensão à forma como compreendemos a saúde e as relações.
O intestino está cheio de bactérias úteis
O intestino alberga inúmeras bactérias. Na maioria dos casos, não são prejudiciais. Muitas delas ajudam o corpo a funcionar melhor: decompõem os alimentos, dão suporte ao sistema imunitário e contribuem para manter o organismo em equilíbrio.
A este conjunto chama-se microbioma intestinal. Cada pessoa tem uma combinação própria. A alimentação e o ambiente influenciam-no, mas agora os cientistas observam que a interacção social também tem um papel.
Ou seja, o seu intestino não é moldado apenas pelo que come. Também é influenciado por quem escolhe ter por perto.
Pistas vindas de uma pequena ave: a felosa-das-Seicheles e o microbioma intestinal
Para explorar esta ideia, a equipa estudou a felosa-das-Seicheles. Esta ave de pequeno porte vive numa ilha muito pequena e raramente sai de lá, o que a torna ideal para um acompanhamento prolongado.
Os cientistas conseguem seguir cada ave, observar o seu comportamento e analisar as relações ao longo do tempo. Assim, obtém-se uma visão clara de como a vida social se liga à biologia.
“Para perceber como as bactérias intestinais se propagam entre parceiros sociais, recolhemos meticulosamente as fezes das aves ao longo de vários anos,” disse a Dra. Chuen Zhang Lee.
“Recolhemos centenas de amostras de aves com papéis sociais conhecidos – pares reprodutores, ajudantes e não ajudantes a viver no mesmo grupo e em grupos diferentes.”
Segundo a Dra. Lee, isto permitiu à equipa comparar as bactérias intestinais de aves que interagiam de perto no ninho com as de aves que não tinham esse nível de contacto.
Viver no mesmo sítio aumenta a semelhança
Os investigadores centraram-se nas bactérias intestinais anaeróbias, que crescem sem oxigénio, o que ajudou a compreender de que forma interacções sociais próximas podem espalhar estes micróbios entre indivíduos.
Os resultados revelaram um padrão nítido: as aves que partilhavam o mesmo espaço apresentavam bactérias intestinais mais semelhantes do que as que viviam separadas.
Isto indica que o ambiente partilhado conta. Ainda assim, o estudo vai mais longe e sugere que a própria interacção pesa ainda mais.
Quanto mais tempo as aves passavam juntas, mais parecidas se tornavam as suas bactérias intestinais. Em termos práticos, o contacto diário cria oportunidades para a passagem de bactérias entre indivíduos.
O contacto próximo é o factor decisivo
Nem todas as bactérias se comportam da mesma forma. Algumas conseguem resistir fora do corpo; outras não.
As bactérias anaeróbias não sobrevivem na presença de oxigénio. Por isso, para passarem de um organismo para outro, tendem a depender de contacto próximo.
As aves que colaboravam de forma mais estreita - sobretudo no ninho - partilhavam mais destas bactérias. Eram aves que alimentavam crias, permaneciam próximas e interagiam com frequência.
“Descobrimos que quanto mais social é com outro indivíduo, mais partilha bactérias intestinais anaeróbias semelhantes,” afirmou a Dra. Lee.
Isto reforça a ideia de que é a proximidade nas interacções - e não apenas estar por perto - que impulsiona esta partilha.
Os papéis sociais também moldam o intestino
Dentro dos grupos, alguns indivíduos assumem o papel de ajudantes. Estes ajudantes contribuem para criar as aves jovens, o que os mantém em contacto constante com os restantes membros.
Por esse motivo, os ajudantes acabam por partilhar mais bactérias intestinais com o grupo. O seu microbioma torna-se mais semelhante ao das aves que os rodeiam.
Em suma, o comportamento e as responsabilidades dentro do grupo podem influenciar a biologia.
O que isto pode significar para as pessoas
Partilhar uma casa, cozinhar em conjunto ou até sentar-se muito perto cria ocasiões para que bactérias passem de uma pessoa para outra.
“Quer esteja a viver com um(a) parceiro(a), um(a) colega de casa ou a família, as interacções diárias - desde abraços e beijos até à partilha de espaços de preparação de alimentos - podem incentivar a troca de micróbios intestinais,” explicou a Dra. Lee.
São gestos pequenos e repetidos. Com o tempo, podem contribuir para moldar o microbioma intestinal.
Partilhar nem sempre é mau - pode até ser benéfico
À primeira vista, a ideia de “partilhar bactérias” pode soar estranha, mas nem todas as bactérias são nocivas. Pelo contrário, muitas ajudam o corpo a funcionar melhor.
Algumas facilitam a digestão, outras protegem contra doenças e ajudam a manter o organismo equilibrado. Por isso, a partilha de bactérias benéficas pode, inclusive, apoiar uma melhor saúde dentro de um agregado familiar.
Esta investigação sugere que a ligação humana vai além das emoções: também se reflecte no corpo de formas discretas.
As pessoas à sua volta podem influenciar a sua saúde a um nível que não se vê. Os hábitos do dia-a-dia, a proximidade e as relações contam.
Da próxima vez que partilhar uma refeição ou se sentar perto de alguém, lembre-se disto: essa ligação pode estar a moldar mais do que apenas o seu dia.
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