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Cientistas descobrem espécie estranha de térmitas com cabeça semelhante à de uma baleia.

Inseto modelo com olhos pintados, a sair de toca feita de gravetos e folhas secas, observado com lupa.

Uma pequena térmita de uma floresta tropical sul-americana revelou-se uma espécie nova, com uma cabeça que faz lembrar a de uma baleia-cachalote.

A silhueta invulgar chegou a levar os investigadores a pensar, por instantes, que tinham encontrado um ramo diferente da vida das térmitas - antes de os obrigar a recuar e a refazer o percurso na sua árvore familiar.

Essa identificação falhada acabou por tornar mais claro até que ponto as estruturas corporais de defesa podem afastar-se das relações evolutivas mais profundas dentro deste grupo.

No dossel: Cryptotermes mobydicki nas copas

Numa árvore morta ainda de pé, na Guiana Francesa, na costa nordeste da América do Sul, a colónia encontrava-se a cerca de 8 metros (26 pés) acima do solo da floresta.

Foi aí que Rudolf Scheffrahn, do Institute of Food and Agricultural Sciences (UF/IFAS) da Universidade da Florida, reparou num plano corporal que ninguém antecipava.

Visto de perfil, o soldado apresentava uma frente arredondada tão prolongada que as mandíbulas quase desapareciam, criando um aspecto semelhante ao de um cetáceo.

Foi precisamente essa aparência “tipo baleia” que levou a equipa do UF/IFAS a confundir por momentos o insecto com algo de fora do seu próprio grupo - dando origem ao enigma de classificação que se seguiu.

Uma cabeça que levou ao erro

O perfil estranho chamou a atenção porque, entre especialistas, a classificação de espécies de térmitas é muitas vezes feita a partir da forma dos soldados, e não dos membros mais frágeis da colónia.

Neste caso, a cabeça parecia tão alongada e estreita que a equipa suspeitou inicialmente estar perante um tipo totalmente novo de térmita.

Mais tarde, uma árvore filogenética - um “mapa” das relações evolutivas - voltou a encaixar o insecto no grupo já conhecido e ligou-o a parentes tropicais.

Este contraste entre aparência e ascendência evidenciou como uma parte do corpo usada para defesa pode divergir bastante da história evolutiva mais funda.

Térmitas em madeira selada

A colónia pertencia às térmitas de madeira seca, térmitas que nidificam na madeira, vivem sem contacto com o solo e permanecem seladas dentro do lenho.

Como o ninho estava num tronco morto perto da copa, quase todo o universo da colónia cabia dentro de um único abrigo rígido.

Os operários - os chamados pseudergates, ajudantes imaturos que ainda podem continuar a desenvolver-se - terão tratado da alimentação e da escavação de galerias, enquanto os soldados vigiavam as entradas.

Esse modo de vida fechado ajuda a perceber por que razão os cientistas podem não detectar espécies invulgares, mesmo quando estas estão apenas “por cima das suas cabeças”.

Diversidade tropical de térmitas

Baptizado Cryptotermes mobydicki, o insecto passou a ser o 16.º membro registado na América do Sul de um grupo mais amplo de térmitas que conta agora com 73 espécies em todo o mundo.

A maioria dos parentes mais próximos conhecidos distribui-se pela América tropical, incluindo Colômbia, Trindade, República Dominicana e áreas próximas da região.

Essa distribuição encaixa numa história mais vasta das térmitas, em que parentes associados à madeira conseguiram, ao longo do tempo, percorrer distâncias surpreendentes entre oceanos e linhas costeiras.

Assim, uma única espécie peculiar encontrada numa árvore de floresta tropical também ajudou a tornar mais nítida uma narrativa muito mais antiga sobre deslocações nos trópicos.

Cabeça construída para defesa

No género Cryptotermes, os soldados recorrem frequentemente à phragmose, selando aberturas do ninho com a própria cabeça para impedir a entrada de intrusos.

Aqui, a parte frontal da cabeça projeta-se tão para a frente que, vista de cima, as mandíbulas quase não se distinguem.

Os investigadores não testaram directamente como esta espécie combate, mas a anatomia está em linha com uma linhagem já conhecida por uma defesa “de cabeça”.

A forma marcante destaca-se a olho nu, embora torne mais difícil a comparação com espécies aparentadas.

Porque é que as casas estão seguras

Para os proprietários, o detalhe tranquilizador não é a cabeça semelhante à de uma baleia, mas sim o modo de vida restrito e ligado à floresta.

Ao contrário de alguns parentes invasores que se espalharam pelo mundo através de barcos e madeira serrada, esta espécie só é conhecida em madeira nativa de floresta tropical.

Algumas térmitas de madeira seca transformam-se em pragas dispendiosas porque as pessoas transportam lenho infestado, mas nada neste registo aponta para esse tipo de dispersão.

A descoberta sublinha sobretudo biodiversidade e classificação, e não qualquer novo risco estrutural.

Uma amostra muito reduzida

A descrição científica baseou-se em material limitado, e a forma adulta alada continua por identificar.

Foram recolhidos apenas dois soldados e dez pseudergates, porque a madeira morta era demasiado dura para ser totalmente aberta a grande altura, no dossel.

Uma amostra tão curta impôs limites óbvios, sobretudo quando os investigadores tentaram determinar os parentes vivos mais próximos.

A recolha de mais exemplares poderá ainda afinar relações mais detalhadas, mesmo que a espécie em si esteja assegurada.

A origem do nome da espécie

O epíteto mobydicki não foi apenas uma brincadeira, já que a vista lateral lembrava de facto a cabeça de uma baleia-cachalote.

“A vista lateral da proeminência frontal e da cabeça alongada do soldado assemelha-se à cabeça de uma baleia-cachalote”, afirmou Scheffrahn.

Acrescentou ainda que as mandíbulas ocultas e a posição da cavidade de inserção das antenas reforçavam essa semelhança.

Dessa forma, o nome captou o traço mais impressionante do animal sem alterar qualquer aspecto da ciência formal por detrás da descrição.

O que ainda falta descobrir

Uma térmita fora do comum também chamou a atenção para uma lacuna muito maior no conhecimento, sobretudo nas copas tropicais, que continuam a ser difíceis de amostrar de forma consistente.

“A descoberta desta nova espécie distintiva de térmita sublinha o vasto número de organismos ainda sem nome por descobrir no nosso planeta”, disse Scheffrahn.

Esta observação pesa ainda mais no caso das térmitas, um grupo com cerca de 3.000 espécies descritas, mas com muitos habitats pouco explorados.

Cada linhagem que passa despercebida torna mais difícil compreender como as florestas reciclam madeira, movimentam nutrientes e reagem a perturbações.

Impacto da descoberta

Este insecto de “cabeça de baleia” mostrou como uma única espécie invulgar pode reorganizar a classificação, ampliar o mapa da diversidade tropical e orientar investigações futuras.

A recolha de novos exemplares poderá revelar os adultos alados e relações mais finas, mas o dossel já deixou uma lição clara sobre a vida escondida.

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