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Papagaio com deficiência torna-se líder graças a um estilo de luta único.

Dois papagaios verdes alaranjados juntos em pedras com montanhas nevadas ao fundo e outros dois papagaios perto de um comedou

A maioria das histórias de vida selvagem sobre deficiência costuma ser contada como um relato de sobrevivência contra todas as probabilidades. Um estudo recente, porém, descreve um caso bem diferente.

O foco está num papagaio kea ameaçado de extinção chamado Bruce, que transformou uma deficiência grave numa vantagem inesperada.

Bruce vive na Reserva de Vida Selvagem de Willowbank, na Nova Zelândia. Perdeu por completo o bico superior - uma estrutura de que a maioria dos papagaios depende para sobreviver no dia a dia. Em vez de um declínio inevitável, o que se seguiu foi adaptação.

Bruce, o papagaio kea com deficiência que se tornou macho alfa

Bruce é um kea da Nova Zelândia, uma ave conhecida pela inteligência e pelo bico muito curvo. Só que, no caso dele, falta-lhe a metade superior do bico.

Chegou a Willowbank já assim e vive ali há cerca de 12 anos como a única ave com deficiência num grupo de 12.

Em regra, nos confrontos, vencem os animais maiores ou com melhores “armas”. Um papagaio com apenas metade do bico deveria ficar no último lugar da hierarquia. Mas Bruce faz exatamente o contrário: é a ave dominante do grupo.

“Bruce é o macho alfa do seu grupo”, afirmou o primeiro autor do estudo, Alexander Grabham, da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia.

“Ele alcançou este estatuto por si próprio com a ajuda de uma técnica de combate totalmente inédita - um golpe de justa com o bico inferior exposto - que os kea com o bico intacto não conseguem replicar.”

Todas as lutas, sempre invicto

Investigadores da Universidade de Canterbury observaram 227 encontros agressivos no grupo ao longo de quatro semanas.

Depois, concentraram-se nas 162 lutas entre machos. Bruce não ganhou apenas algumas: venceu todas as suas 36 lutas.

Ficou acima de sete machos intermédios e posicionou-se confortavelmente à frente de dois claros “underdogs”, Taz e Johnny. Os dados não deixaram margem para dúvidas: Bruce manda.

A arma secreta do papagaio com deficiência

Como é que um papagaio sem bico superior consegue derrotar rivais plenamente intactos? A explicação passou por um estilo de combate que nunca tinha sido visto noutro kea.

Normalmente, os kea mordem de cima para baixo na zona do pescoço durante as lutas. Bruce faz outra coisa: ataca para a frente, usando o bico inferior como se fosse uma lança.

Para isso, estica o pescoço ou corre na direção do adversário, por vezes até saltando com força. Os investigadores chamaram a este método justa.

Os seus golpes levam os rivais a recuar em 73 por cento das vezes, em comparação com 48 por cento quando ele apenas dá pontapés.

Bruce também pontapeia, como os outros kea, mas a justa é uma técnica extra que ele desenvolveu sozinho.

Uma vida tranquila, com pouco stress

Em muitas espécies, ser macho alfa implica níveis elevados de stress. Manter o topo da hierarquia exige esforço constante; por exemplo, babuínos dominantes costumam apresentar stress elevado.

Com Bruce, o padrão foi diferente. Os investigadores mediram hormonas de stress nas fezes de machos kea e descobriram que Bruce tinha os níveis mais baixos do grupo.

Em contraste, os machos com posição mais baixa na hierarquia apresentavam o stress mais alto.

As aves de rank inferior tratam-lhe do “penteado”

A serenidade de Bruce pode também estar ligada a algo simples, mas relevante: outros machos kea tratam-no. Este comportamento, chamado alopreenagem, ocorre geralmente entre parceiros. No entanto, Bruce foi o único macho a recebê-lo de outros que não eram os seus parceiros.

Foram sobretudo os machos de rank inferior que o fizeram. Taz, a ave no fundo da hierarquia, tratou Bruce nove vezes durante o estudo.

Limpavam-lhe a cabeça, o pescoço e, sobretudo, o interior do bico inferior - um ponto crucial, porque, sem bico superior, é mais fácil acumular detritos e mais difícil fazer a manutenção.

A limpeza social tem sido associada a níveis mais baixos de hormonas de stress em aves, o que ajuda a explicar porque é que o macho alfa é também o mais descontraído do grupo.

O primeiro na fila para comer

Bruce beneficia ainda de vantagens claras durante a alimentação. A reserva instalou quatro pontos de comida para impedir que uma única ave monopolizasse o acesso. Ainda assim, isso não o travou.

Ele chegou primeiro a um comedouro em 83 por cento dos dias observados. Enquanto comia, as outras aves não o desafiavam.

Em quatro dias diferentes, conseguiu manter os quatro comedouros só para si durante pelo menos 15 minutos antes de alguém se atrever a aproximar-se.

Chegar ao topo sem aliados

O que torna a história de Bruce particularmente fora do comum é ter conseguido tudo isto sozinho. Os únicos casos comparáveis descritos na literatura científica envolvem primatas que precisaram de apoio.

Um chimpanzé chamado Faben, que perdeu o uso de um braço devido à poliomielite, voltou a subir até à posição beta ao formar uma parceria com o irmão.

Um macaco-japonês idoso manteve o lugar de macho alfa à medida que a sua capacidade de andar falhava, mas apenas ao aliar-se à fêmea alfa.

Bruce não tinha um irmão nem uma fêmea alfa a apoiá-lo. Chegou lá com a própria inteligência e com o seu novo e estranho estilo de combate.

A desafiar ideias sobre a deficiência

As conclusões vão além de uma única ave. Este é o primeiro caso conhecido de um animal com deficiência que se torna e se mantém macho alfa apenas através do próprio comportamento.

Isto desafia uma ideia antiga na investigação animal: a de que a deficiência conduz sempre a um estatuto social mais baixo.

“Bruce mostra-nos que a inovação comportamental pode contornar a deficiência física, pelo menos em espécies com a flexibilidade cognitiva para desenvolver novas soluções”, disse Grabham.

O estudo também levanta questões desconfortáveis para humanos bem-intencionados.

“As nossas conclusões também levantam uma importante questão de bem-estar: se um animal com deficiência consegue inovar até ao sucesso, intervenções bem-intencionadas como próteses podem nem sempre melhorar a sua qualidade de vida”, afirmou Grabham. “Por vezes, o animal consegue sair-se melhor sem ajuda.”

Crédito da imagem: Alex Grabham

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