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Cientistas analisaram o real impacto de ter animais de estimação na saúde e bem-estar, revelando resultados surpreendentes.

Jovem sentado no chão de uma sala, a afagar um cão, com portátil e papéis numa mesa à frente.

Um novo estudo concluiu que ter adotado um animal de estimação não tornou os inquilinos de um estado australiano mais saudáveis, menos sós ou mais satisfeitos com a vida.

Este resultado contraria uma das promessas mais repetidas sobre a companhia de animais e obriga a olhar com mais atenção para o que, na prática, os animais de estimação realmente mudam.

Um grupo de estudo ideal: inquilinos em Victoria

No estado de Victoria, no sudeste da Austrália, uma alteração à lei do arrendamento em 2020 abriu aos inquilinos uma via mais clara para manterem animais de estimação, criando o cenário real em que esta conclusão se formou.

Ao acompanhar o que aconteceu depois, Ferdi Botha, do Instituto de Melbourne de Investigação Económica e Social Aplicada, mostrou que, com a mudança de regra, mais arrendatários passaram efetivamente a ter animais.

Em 2022, 37% dos inquilinos abrangidos pela nova regra tinham um animal de estimação, face a 27% dos proprietários de casa no mesmo estado.

Esse aumento tornou mais difícil ignorar o achado central: mesmo com mais pessoas a terem animais, não surgiu uma melhoria evidente no bem-estar.

A evidência mais antiga tropeçava

Grande parte dos estudos anteriores baseava-se em dados transversais, comparando pessoas diferentes num único momento, o que torna complicado separar causa e escolha.

Um artigo de 2025 indicou que donos de animais tinham pontuações três a quatro pontos mais altas numa escala de satisfação com a vida de sete pontos.

Resultados deste género podem parecer convincentes e, ainda assim, refletir seleção, porque pessoas mais satisfeitas podem ter maior probabilidade de adotar um animal.

A equipa australiana procurou testar a crença de forma mais direta, acompanhando mudanças ao longo do tempo em vez de assumir que os grupos eram equivalentes desde o início.

Mais robusto do que “fotografias” pontuais

Em vez de depender de recordações ou de inquéritos isolados, os investigadores recorreram a um inquérito nacional que acompanha os australianos ao longo do tempo.

Como a mesma população alargada foi observada em 2018 e 2022, o estudo conseguiu captar movimentos e não apenas diferenças estáticas.

Assim, a reforma de 2020 funcionou como uma quase-experiência: um acontecimento do mundo real que se aproxima de um teste, apesar de ninguém ter atribuído animais aleatoriamente.

O desenho continuou a ter limitações, mas ficou bem mais perto de uma resposta de causa e efeito do que os inquéritos habituais sobre animais de estimação.

Não se detetou melhoria

Os investigadores seguiram quatro dimensões que as pessoas tipicamente esperam ver melhorar com animais: satisfação com a vida, solidão, saúde mental e saúde geral.

Se a companhia estivesse a gerar ganhos duradouros, seria de esperar alterações nas pontuações, já que o conforto pode reduzir stress e atenuar o isolamento.

Isso não aconteceu; qualquer benefício nítido só surgiria se o contexto evoluísse de formas muito mais fortes do que as evidências indicavam.

“Adquirir um animal de estimação dificilmente será uma estratégia eficaz para melhorar a saúde ou reduzir a solidão”, concluiu Botha.

Custos podem eclipsar benefícios

Os animais podem acalmar e confortar, mas também trazem despesas, rotinas, limpezas e preocupações - fatores que podem atuar no sentido oposto.

Para quem vive em arrendamento, em particular, alimentação, veterinário, treino e regras de habitação podem transformar a companhia numa fonte adicional de stress.

Esta tensão é relevante porque a Associação Americana do Coração afirma que os animais podem “ajudar a ter uma mente mais feliz e saudável”.

Os novos resultados não apagam afeto nem conforto, mas sugerem que esses sentimentos não asseguram, por si só, ganhos gerais de saúde.

O momento pode ser determinante

É possível que um eventual “impulso” com a chegada de um novo animal desapareça antes de um intervalo longo de inquéritos o conseguir registar.

Como a posse foi medida apenas em 2018 e 2022, os autores não conseguiram datar com precisão cada adoção.

Quem viveu com um animal durante seis meses e quem viveu com um durante dois anos acabou agrupado da mesma forma.

Se existir uma melhoria breve no início, é fácil que se dilua dentro de uma janela temporal tão ampla.

A COVID complica a leitura

A COVID baralhou o cenário, sobretudo em Melbourne, a segunda maior cidade da Austrália, onde o confinamento durou 262 dias e o quotidiano se alterou para toda a gente.

Para lidar com isso, os investigadores compararam inquilinos com pessoas expostas aos mesmos confinamentos e choques económicos em Victoria, mas que não foram afetadas pela nova regra sobre animais.

Numa outra verificação, restringiram a amostra a 425 pessoas que arrendavam em Victoria antes e durante a reforma.

Essas reanálises continuaram a apontar valores perto de zero, tornando menos plausível que o resultado principal fosse apenas um efeito colateral do confinamento.

Os dados não captam pormenores essenciais

Alguns aspetos ficaram por esclarecer, e isso importa quando se passam médias populacionais para casos individuais.

O inquérito perguntava se o agregado tinha algum animal, mas não identificava quem cuidava mais, quantos animais existiam, nem que tipo eram.

Um gato que partilha a casa de forma discreta contou tanto quanto um cão que organiza passeios, horários e contacto social.

Podem existir pequenos benefícios ou prejuízos em grupos específicos, mesmo que a média global permaneça próxima de zero.

Significado sem “medicina”

Nada disto implica que os animais sejam irrelevantes, sem alegria ou substituíveis, e o artigo nunca o afirma.

As pessoas costumam gostar de animais por motivos que não cabem em escalas de saúde, incluindo ligação emocional, rotina, identidade e cuidado.

Os próprios autores sublinham que uma média plana não significa que ninguém beneficie da companhia de animais.

Isso deixa em aberto uma questão mais difícil: perder um animal pode magoar mais do que ganhar um ajuda.

O que fica daqui

A lição mais clara não é que os animais falham as pessoas, mas que afirmações populares de bem-estar podem avançar mais depressa do que a evidência cuidadosa.

Trabalhos futuros terão de recolher dados mais precisos sobre o momento da adoção, o tipo de animal e o grau de ligação para perceber se a média plana esconde ganhos menores.

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