Um pequeno pedaço de chocolate antes de descontrair pode saber a conforto. Muita gente gosta de comer doces enquanto vê um filme ou faz uma pausa. Mas e se esse lanche açucarado, de forma discreta, mantiver o corpo em alerta em vez de o acalmar?
Investigação recente indica que o açúcar pode alterar a forma como o corpo entra em modo de repouso, mesmo quando a mente se sente tranquila.
O açúcar dá energia rápida
O açúcar funciona como combustível imediato para o organismo. Estudantes recorrem muitas vezes ao chocolate antes de exames, e atletas usam barras energéticas antes de provas.
Ao mesmo tempo, o açúcar aumenta o cortisol, uma hormona associada ao stress, e ajuda a manter a frequência cardíaca elevada. Isto facilita que o corpo permaneça desperto em situações exigentes.
No entanto, consumir açúcar com frequência pode prejudicar a saúde a longo prazo. Pode contribuir para hipertensão arterial, obesidade e problemas cardíacos.
Os cientistas já conhecem bem estes efeitos. Agora, os investigadores querem esclarecer algo diferente: será que o açúcar interfere com a capacidade do corpo para relaxar?
Como o açúcar influencia o relaxamento
O professor Jens Pruessner e a sua equipa, na Universidade de Constança, aprofundaram esta questão. O estudo centrou-se na relação entre os níveis de glicose no sangue e o relaxamento.
“Se o estômago estiver cheio, os exercícios de relaxamento não serão tão eficazes”, assinalou Pruessner.
A ideia contraria um hábito comum: muitas pessoas comem qualquer coisa antes de tentar relaxar. Segundo o estudo, isso pode diminuir os benefícios reais de práticas de relaxamento.
Como o corpo gere stress e descanso
Para regular stress e relaxamento, o corpo recorre ao sistema nervoso autónomo. Este sistema tem dois ramos. O sistema simpático prepara o organismo para agir. O sistema parassimpático ajuda o corpo a abrandar e a acalmar.
“O nosso coração tem um pacemaker interno que determina a velocidade a que bate”, referiu Maria Meier, primeira autora do estudo.
“Enquanto a actividade simpática tem um efeito estimulante e activador em momentos de stress, a actividade parassimpática funciona como um travão vagal, abrandando o batimento cardíaco.”
Os dois ramos trabalham em conjunto para manter o equilíbrio. Quando um se activa, o outro tende a reduzir a actividade. Essa alternância é essencial para responder ao que acontece e recuperar de forma adequada.
Como foi testada a relação entre açúcar e relaxamento
O estudo contou com 94 adultos jovens saudáveis. Os participantes estiveram em jejum durante algumas horas antes da experiência.
Uma parte bebeu uma solução de glicose e outra parte bebeu água. Depois, metade do grupo recebeu uma breve massagem nos ombros, enquanto os restantes apenas descansaram em repouso.
Os investigadores avaliaram a actividade cardíaca, os níveis de glicose no sangue e a percepção subjectiva de relaxamento. O açúcar no sangue subiu apenas no grupo que ingeriu glicose, o que mostrou uma absorção rápida.
Tanto a massagem como o repouso levaram os participantes a sentir-se mais calmos. As medições do coração também indicaram activação do sistema de acalmia em ambos os grupos.
O que aconteceu dentro do corpo
Apesar de os participantes se sentirem relaxados, o organismo contou outra história. O açúcar activou o sistema ligado ao stress. Em vez de diminuir, o sistema simpático manteve-se activo.
Os investigadores observaram que a glicose aumentou a actividade do sistema de stress e impediu a descida habitual da resposta ao stress durante o relaxamento. Ou seja, mesmo numa actividade calmante, o corpo permaneceu parcialmente em estado de alerta.
“Isto significa: Embora os participantes se tenham sentido relaxados de forma subjectiva, o seu sistema nervoso simpático não abrandou, mas manteve o corpo num estado mais elevado de activação”, disse Meier.
“Como conclusão a partir dos nossos resultados, podemos dizer que o açúcar prejudica a capacidade do corpo para relaxar.”
Massagem, repouso e relaxamento verdadeiro
O estudo revelou ainda que a massagem foi mais eficaz do que simplesmente repousar. A massagem potenciou com mais força o sistema responsável por acalmar. Este efeito deverá estar relacionado com o toque suave, que transmite segurança ao corpo e reduz o stress.
Ao mesmo tempo, o açúcar diminuiu parte desse ganho. Nas pessoas que beberam água, o sistema de stress desacelerou mais durante a massagem. Nas pessoas que ingeriram açúcar, esse efeito foi menos evidente.
Os resultados sugerem, portanto, que o açúcar pode bloquear uma parte do processo natural de relaxamento do organismo.
O açúcar ajuda a concentrar
Curiosamente, o açúcar apresentou um aspecto positivo. Ajudou os participantes a ter melhor desempenho em tarefas de atenção. Níveis mais altos de glicose no sangue associaram-se a melhor concentração e maior precisão.
Isto é compreensível: o açúcar fornece energia, e essa energia ajuda o cérebro a manter o foco. Mas há uma contrapartida. O corpo mantém-se mais activado e menos relaxado.
Assim, o açúcar pode ser útil em situações que exigem atenção, mas não em momentos em que o objectivo é acalmar.
O que isto significa no dia a dia
Muitas pessoas ligam doces a conforto. Um gelado durante um filme ou um bolo em família parece, por si só, relaxante. Mas este estudo mostra que o açúcar pode reduzir, de forma discreta, o relaxamento real.
“Desfrutar de um lanche doce é muitas vezes associado a situações de relaxamento – uma tablete de chocolate ou um gelado com um filme, uma fatia de bolo ao fim-de-semana com a família”, observou Pruessner.
“Na verdade, a activação simpática constante após a ingestão de açúcar parece limitar a capacidade de relaxar. Por isso, se quiser relaxar de forma explícita, por exemplo através de meditação ou relaxamento muscular progressivo, não deve comer algo rico em açúcar antes.”
O conselho é simples: evitar açúcar antes de actividades como meditação, massagem ou repouso profundo.
Uma nova forma de compreender o corpo
O estudo deixa ainda uma lição relevante: é importante analisar, em conjunto, os sistemas de stress e de relaxamento. Observar apenas um deles pode ocultar efeitos importantes.
“Para fazer afirmações válidas, não podemos olhar apenas para um sistema isoladamente – isto é, ou o sistema simpático ou o sistema parassimpático – porque, caso contrário, estaríamos a ignorar alguns efeitos”, afirmou Meier.
Esta perspectiva ajuda a perceber por que motivo alguém pode sentir-se relaxado mesmo quando o corpo não está totalmente calmo. No fundo, relaxar a sério não depende apenas da sensação mental.
O corpo também precisa de abrandar. E, por vezes, saltar o doce pode ajudar o organismo a alcançar esse estado de descanso mais profundo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário