Os bezerros jovens não respondem à fome apenas com mais vontade de comer. Um novo estudo indica que a fome pode alterar, de forma mais profunda, aquilo que realmente lhes importa.
Quando o leite é racionado, os bezerros tornam-se mais rápidos, mais atentos e mais focados em obter uma recompensa alimentar. Ao mesmo tempo, os bezerros com fome parecem abdicar de algo importante pelo caminho: a brincadeira.
A investigação, liderada pela Universidade de Bristol, analisou o comportamento de bezerros leiteiros quando recebiam diferentes quantidades de leite.
Os resultados sugerem que, à medida que a fome aumenta, a comida começa a sobrepor-se a outras motivações.
Isto é relevante porque a brincadeira é muitas vezes considerada um dos sinais mais claros de que um animal se sente suficientemente bem para fazer mais do que apenas satisfazer necessidades básicas.
A comida vem primeiro
Para testar esta hipótese, os investigadores trabalharam com dois grupos de bezerros leiteiros. Um grupo recebeu 12 litros de leite por dia, enquanto o outro recebeu 6 litros - quantidade que o estudo descreve como a dose normal, habitualmente fornecida em explorações leiteiras.
Depois, os bezerros foram avaliados num labirinto em que o leite funcionava como recompensa. O objectivo era perceber quão forte era a motivação dos animais para encontrar alimento e até que ponto conseguiam memorizar o percurso após o aprenderem.
A diferença entre os dois grupos foi evidente.
Os bezerros que receberam menos leite concluíram as tarefas mais depressa e recordaram melhor o trajecto. Mostraram-se mais concentrados, mais persistentes e mais claramente orientados para a recompensa de leite.
Já os bezerros com maior quantidade de leite reagiram de outra forma. Demonstraram menos interesse em perseguir a recompensa e mais tendência para brincar. Ou seja, a fome pareceu “encolher” o mundo dos bezerros.
O que a brincadeira revela nos bezerros leiteiros
A brincadeira pode parecer algo irrelevante para quem observa de fora, mas, em regra, não é. Os animais tendem a brincar quando estão suficientemente confortáveis, suficientemente seguros e com liberdade para gastar energia em algo que não é imediatamente indispensável à sobrevivência.
Se os bezerros deixam de brincar e passam a estar quase totalmente focados na comida, isso não é apenas uma peculiaridade comportamental. Pode estar a indicar de que forma a fome está a moldar o seu estado emocional e mental.
“O estudo está entre os primeiros a mostrar que animais com fome abdicam da brincadeira para dar prioridade à procura de alimento”, disse a autora principal do estudo, Jillian Hendricks, estudante de doutoramento na Universidade de Bristol.
“Amplia a nossa compreensão de como a fome suprime outras motivações e emoções concorrentes, como as oportunidades de brincar.”
“Também abre caminho para investigação futura, explorando como os animais dão prioridade a comportamentos e incentivos em conflito. Isto é especialmente importante em animais de produção, que muitas vezes têm oportunidades limitadas de expressar certos comportamentos.”
Assim, quando a fome empurra ainda mais a brincadeira para segundo plano, isso pode estar a dizer-nos algo sério sobre bem-estar - e não apenas sobre eficiência alimentar.
Ser mais rápido não é necessariamente melhor
À primeira vista, os bezerros que receberam menos leite poderiam parecer os melhores aprendizes. Foram mais rápidos, lembraram-se mais e aparentaram uma motivação elevada.
Mas essa não é, na verdade, a mensagem do estudo.
Os investigadores não defendem que dar menos leite aos bezerros seja de alguma forma benéfico por “afinar” o desempenho. O que demonstram é que a fome faz com que a recompensa passe a ter mais peso.
Um bezerro com mais fome vai esforçar-se mais pelo leite. Isso não significa que esteja em melhores condições.
Na realidade, o resultado mais revelador pode ser o que aconteceu com os bezerros que receberam mais leite.
Eles não estavam tão obcecados com a recompensa. Tinham, por assim dizer, margem para se interessar por outra coisa, como brincar.
O que os produtores devem ter em conta
Para os produtores de leite, estes resultados levantam uma questão desconfortável, mas útil. Se os bezerros que recebem a dose “padrão” de leite estão mais orientados para comida e menos predispostos a brincar, o que é que isso diz sobre o grau de fome que realmente sentem?
“A principal conclusão para os produtores de leite é que a dose padrão de leite para bezerros pode interferir com outros comportamentos importantes, o que indica que podem sentir fome”, afirmou o co-autor do estudo, Ben Lecorps, de Bristol.
“A investigação sugere que alimentar os bezerros com mais leite pode não só ser benéfico por reduzir a fome, como também porque contribui para a expressão de outros comportamentos importantes, como a brincadeira.”
Dito de outra forma, a fome está a moldar o comportamento de maneiras que medidas simples de crescimento não captam. Um bezerro pode estar a ganhar peso e, ainda assim, ter fome suficiente para que isso afecte a forma como se comporta.
É precisamente isso que torna este estudo interessante: desafia-nos a olhar para além da produtividade e a pensar naquilo que o animal está, de facto, a experienciar.
Alimentação após uma longa espera
Há um pormenor do ensaio que torna os resultados ainda mais marcantes. Embora os bezerros tenham recebido diferentes quantidades de leite ao longo de três semanas, todos ficaram sem alimento durante 16 horas antes de serem testados.
Segundo os investigadores, isto reflectiu uma prática comum na exploração, com duas refeições diárias: uma às 8 a.m. e outra às 4 p.m. Para um bezerro jovem, trata-se de um intervalo longo.
E, ainda assim, mesmo depois de tanto tempo sem leite, os bezerros que tinham recebido mais continuaram a demonstrar maior interesse em brincar.
“Isto diz-nos muito sobre o quanto a brincadeira é importante para eles”, disse Lecorps.
O bem-estar é mais importante do que a aprendizagem
No fim de contas, este estudo trata de mais do que bezerros a aprenderem a atravessar um labirinto. Trata-se do que a fome faz à mente.
A fome pode aguçar, mas também restringe a atenção. Leva os animais a fixarem-se na comida de forma tão intensa que outros comportamentos começam a perder destaque.
Curiosidade, exploração e brincadeira tornam-se menos importantes quando a próxima refeição parece suficientemente urgente.
É por isso que estes resultados não devem ser lidos como uma história simples sobre motivação. No essencial, falam de bem-estar.
Se os bezerros aprendem mais depressa por estarem com mais fome, isso não é necessariamente sinal de que o sistema está a funcionar bem. Pode ser um sinal de que a fome está a moldar as suas vidas mais do que deveria.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário