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Porque é que os caranguejos andam de lado? Cientistas descobrem finalmente a resposta.

Pessoa a fotografar caranguejos vermelhos numa zona húmida costeira com caderno e régua ao lado.

Pergunte a alguém como é que um caranguejo se desloca e quase de certeza ouvirá a mesma resposta: de lado. É a característica mais emblemática - aquilo que torna os caranguejos imediatamente reconhecíveis como caranguejos.

Ainda assim, há uma questão que tem intrigado biólogos durante décadas: quando é que os caranguejos começaram a fazer isto, quantas vezes esta forma de locomoção apareceu ao longo da evolução e que impacto teve no grupo como um todo?

Um novo estudo publicado na eLife fez, até agora, a análise mais abrangente ao “andar” dos caranguejos - e as conclusões são, de facto, surpreendentes.

Porque é que os caranguejos andam de lado

A anatomia dos caranguejos tem sido estudada ao pormenor há décadas. No entanto, a forma como se deslocam continuava pouco quantificada. A ideia comum era que todos os caranguejos andavam de lado, mas isso não é totalmente verdade.

“Apesar da riqueza de informação disponível sobre os caranguejos verdadeiros, os dados relativos aos seus comportamentos locomotores são escassos”, afirmou o autor sénior do estudo, Yuuki Kawabata, professor associado na Universidade de Nagasaki.

“Embora a maioria das espécies de caranguejos verdadeiros utilize locomoção lateral, existem alguns grupos que andam para a frente, o que levanta questões interessantes. Quando teve origem a sua locomoção lateral, quantas vezes ao longo dos anos evoluiu e quantas vezes reverteu?”

Responder a estas perguntas exigia observação cuidadosa em muitas espécies - algo que nunca tinha sido feito com esta escala.

Registar em vídeo dezenas de espécies de caranguejos

A equipa de investigação reuniu 50 espécies de caranguejos provenientes de ambientes distintos.

Algumas foram recolhidas em zonas entre-marés; outras vieram de aquários e de mercados de peixe. Cada espécie foi mantida num ambiente que reproduzia o seu habitat natural, com elementos como areia, água doce ou água do mar.

Depois, os investigadores colocaram cada caranguejo numa arena circular. Após um breve período de descanso, retiravam uma barreira e filmavam o movimento durante dez minutos.

Este procedimento simples permitiu comparar comportamentos em condições controladas.

Como se mede o modo de deslocação dos caranguejos verdadeiros

A equipa transformou cada gravação em dados quantificáveis. Em cada vídeo, seguiram dois pontos do corpo do caranguejo fotograma a fotograma e, a partir daí, calcularam a direcção do deslocamento em relação ao eixo corporal.

Os resultados mostraram uma separação muito nítida. Das 50 espécies analisadas, 35 deslocavam-se de lado e 15 avançavam para a frente. Quase nenhuma espécie apresentou um comportamento intermédio.

A análise estatística confirmou o padrão: não existe um gradiente contínuo. Em vez disso, as espécies distribuem-se em dois grupos distintos. Ou o caranguejo anda de lado, ou não anda.

Um padrão inequívoco

De seguida, os investigadores projectaram estes resultados numa grande árvore evolutiva construída a partir de dados genéticos. A partir daí, o desenho geral tornou-se evidente.

O andar de lado surgiu apenas uma vez na evolução dos caranguejos. Teve início num grupo chamado Eubrachyura, que inclui a maioria dos caranguejos modernos. Já os grupos mais antigos mantiveram o deslocamento para a frente.

Isto significa que todos os caranguejos que hoje andam de lado partilham um ancestral comum que viveu há cerca de 200 milhões de anos.

“Este único evento contrasta fortemente com a carcinização, que ocorreu repetidamente em espécies de decápodes. Isto realça que, embora as formas corporais possam convergir várias vezes, alterações comportamentais como o andar de lado podem ser raras”, disse Kawabata.

Alguns caranguejos voltaram a andar para a frente

A evolução não segue apenas um sentido. Os investigadores identificaram, pelo menos, seis casos em que caranguejos regressaram ao deslocamento para a frente.

Entre eles estão os caranguejos-aranha, os caranguejos-soldado e os caranguejos-ervilha. Cada um destes grupos se ajustou a estilos de vida diferentes, nos quais a necessidade de fuga rápida é menor.

Assim, mesmo que o andar de lado traga vantagens claras, pode perder-se quando o contexto ecológico muda.

A vantagem de se mover de lado

A locomoção lateral dá aos caranguejos uma vantagem marcante: conseguem deslocar-se para a esquerda ou para a direita a velocidades semelhantes sem terem de rodar o corpo.

Isto torna o movimento menos previsível. Para um predador, torna-se mais difícil antecipar para que lado o caranguejo irá escapar.

Ensaios com robôs inspirados em caranguejos reforçam esta interpretação: para uma morfologia larga, o movimento lateral revela-se mais rápido e mais eficiente.

Um impulso na diversidade

O efeito evolutivo do andar de lado torna-se evidente ao observar o número de espécies. O grupo que adoptou este tipo de locomoção integra milhares de espécies.

Em contraste, grupos aparentados que mantiveram o avanço para a frente apresentam muito menos espécies. Isto sugere que a locomoção lateral ajudou os caranguejos a expandirem-se por numerosos ambientes.

“A locomoção lateral pode ter contribuído significativamente para o sucesso ecológico dos caranguejos verdadeiros”, afirmou Kawabata.

Caranguejos em habitats muito diferentes

Existem cerca de 7.900 tipos de caranguejos verdadeiros. É um valor muito elevado quando comparado com parentes próximos, como Anomura e Astacidea, que reúnem bastante menos espécies.

Estes caranguejos vivem praticamente em todo o lado: em terra, em rios e lagos, e até no oceano profundo.

Além disso, a forma corporal “tipo caranguejo” apareceu muitas vezes em diferentes grupos de animais ao longo de milhões de anos. A este padrão repetido dá-se o nome de carcinização.

Quando a mudança é lógica

Os caranguejos que voltaram ao deslocamento para a frente tendem a apoiar-se noutras estratégias. Os caranguejos-soldado movem-se em grandes grupos. Os caranguejos-aranha recorrem à camuflagem. Os caranguejos-ervilha vivem no interior de outros animais.

Nestas situações, a velocidade deixa de ser tão determinante. A protecção vem do comportamento ou do ambiente, em vez de depender da fuga. Isto ajuda a explicar porque é que o andar de lado nem sempre é indispensável.

Há muitos animais com aspecto de caranguejo que não se deslocam lateralmente. Os caranguejos-rei e os caranguejos-do-coqueiro são bons exemplos.

Isto demonstra que a forma do corpo, por si só, não determina a forma de locomoção. O comportamento evolui sob pressões próprias. Parecer um caranguejo não garante mover-se como um.

Um momento no tempo

A origem do andar de lado terá ocorrido há cerca de 200 milhões de anos, num período posterior a uma grande extinção em massa.

Acontecimentos deste tipo reorganizam ecossistemas e abrem novas oportunidades. Um novo estilo de movimento pode ter ajudado os caranguejos a ocupar nichos então disponíveis.

Ainda assim, são necessários mais dados para separar o efeito do comportamento do efeito do ambiente.

“Para distinguir os papéis relativos da inovação e da mudança ambiental, precisamos de análises adicionais de diversificação dependente de características, cronologias informadas por fósseis e testes de desempenho que liguem o movimento lateral dos caranguejos verdadeiros a vantagens adaptativas”, disse Kawabata.

Uma inovação rara

O andar de lado é pouco comum no mundo animal. Apenas algumas outras espécies exibem padrões de movimento semelhantes.

Isso torna o caso dos caranguejos particularmente interessante: uma única alteração comportamental teve um grande impacto ao longo de milhões de anos.

“Estes resultados actuais realçam que a locomoção lateral nos caranguejos verdadeiros é uma característica rara, mas inovadora, que pode ter contribuído para o seu sucesso ecológico”, observou Kawabata.

“Essas inovações podem abrir novas oportunidades adaptativas e, ainda assim, permanecer condicionadas pela história filogenética e pelos contextos ecológicos.”

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