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Projeto global "Mapear os Gigantes" corre para identificar colónias de corais gigantes antes que desapareçam para sempre.

Mergulhador a medir coral marinho com fita métrica e drone subaquático a captar imagens.

Os recifes de coral são fáceis de apreciar à primeira vista. As cores vivas, os peixes em constante movimento e as formas delicadas chamam de imediato a atenção.

No entanto, há algo muito maior - e muito mais antigo - que permanece à vista de todos sem ser notado. Enormes colónias de coral, algumas mais compridas do que um autocarro urbano, têm crescido em silêncio ao longo de séculos. Muitas nunca foram registadas, identificadas ou estudadas.

Estes gigantes não são apenas corais “fora do normal”. Funcionam como arquivos vivos da história do oceano, moldados por tempestades, pelo aquecimento do mar e por alterações químicas ao longo de centenas de anos. E agora, o tempo começa a escassear para os encontrar.

Recifes sob pressão crescente

Os oceanos atuais estão a mudar a um ritmo sem precedentes. O aumento da temperatura, a poluição e a atividade humana estão a colocar recifes de todo o mundo sob forte stress. Alguns corais branqueiam e morrem em poucas semanas. Outros resistem, mas por muito pouco.

Perante este cenário, um grupo de investigadores lançou uma nova iniciativa chamada Mapear os Gigantes®. Para o projeto, estes “gigantes” são colónias de coral com, no mínimo, 4,9 metros de comprimento.

Apesar da sua dimensão e longevidade, muitas destas colónias continuam ausentes dos registos científicos. E essa falta de reconhecimento deixa-as sem proteção.

“Estamos numa corrida para reconhecer estes organismos. Sobreviveram durante séculos, mas as pressões modernas estão a aumentar tão rapidamente que algumas colónias podem desaparecer antes mesmo de serem documentadas”, sublinharam os autores.

Mapear os corais gigantes escondidos no oceano

A iniciativa nasceu de investigadores da Universidade de Milano-Bicocca, após se aperceberem de algo inesperado.

A ciência tem dedicado enorme atenção ao declínio dos recifes, mas menos do que seria necessário à identificação dos sobreviventes mais robustos. Estas colónias de grande porte podem conter pistas sobre a forma como certos corais resistem ao stress, enquanto outros colapsam.

Por isso, criaram um sistema simples: qualquer pessoa que encontre um coral gigantesco pode comunicá-lo. Fotografias, detalhes de localização e medições básicas são inseridos numa base de dados partilhada. Depois, especialistas analisam cada submissão para confirmar se é correta.

Esta abordagem transforma mergulhadores e praticantes de mergulho com tubo em colaboradores diretos. E acelera as descobertas de uma forma que a investigação tradicional, por si só, dificilmente conseguiria acompanhar.

Pistas gravadas no “pedra” do coral

Os corais gigantes são mais do que estruturas imponentes. Os seus esqueletos crescem camada a camada, quase como anéis de crescimento de uma árvore. Cada camada retém pequenos sinais do oceano dessa época. A temperatura, a química da água e até níveis de poluição podem deixar marcas.

Ao analisar essas camadas, os cientistas conseguem reconstruir mudanças ao longo de centenas de anos - um tipo de registo raro em ambientes marinhos.

“Os corais gigantes de vida longa funcionam como cápsulas do tempo de alta resolução, arquivando séculos de condições climáticas e ambientais passadas nos seus esqueletos”, explicaram os investigadores.

A equipa quer perceber, em particular, o que permite que estes corais durem tanto. Alguns parecem lidar melhor com o stress do que outros. Compreender esse mecanismo poderá ajudar a proteger recifes no futuro.

“Ao localizar e estudar estes sobreviventes antigos, esperamos desbloquear os segredos genéticos e as características que permitiram a estes indivíduos específicos resistir e aclimatar-se às mudanças ambientais.”

Base de dados de colónias de corais gigantes em rápido crescimento

A adesão ao projeto ultrapassou as expectativas. Em apenas 18 meses, pessoas de todo o mundo enviaram 195 comunicações a partir de 22 países. Depois da validação, 133 foram confirmadas e integradas na base de dados.

Algumas descobertas destacam-se de forma evidente. Um dos registos descreveu um coral do género Porites com mais de 60,0 metros de comprimento.

Outro documentou uma colónia de Pavona com um perímetro superior a 195,1 metros. Dimensões assim vão além do que muitos cientistas consideravam plausível. Cada novo registo ajuda a desenhar um retrato mais nítido de onde vivem estes gigantes e de que forma conseguem persistir.

A ciência cidadã como motor das descobertas

Os recifes de coral estendem-se por áreas imensas. Mesmo equipas de investigação numerosas não conseguem monitorizar tudo. É aqui que a ciência cidadã se torna decisiva: uma única fotografia tirada num mergulho casual pode revelar algo que ninguém tinha observado antes.

“A ciência cidadã é fundamental”, afirmou o responsável do projeto, o professor Simone Montano. “A escala dos recifes de coral exige um esforço concertado. Qualquer pessoa com uma câmara e equipamento de mergulho com tubo pode juntar-se a nós. Um simples registo da existência de um gigante é o primeiro passo para os reconhecer e estudar.”

Este esforço partilhado também aumenta a consciencialização. Quem participa tende a sentir-se mais ligado ao oceano - e essa ligação pode traduzir-se em maior apoio à conservação.

Transformar colónias de coral em marcos naturais protegidos

A ambição a longo prazo vai além de encontrar estas colónias. Os investigadores querem que os corais gigantes sejam reconhecidos como marcos naturais de relevância. Isso pode levar a medidas de proteção mais fortes e a uma melhor gestão das zonas onde crescem.

Estas colónias não são apenas elementos biológicos. Têm valor cultural e ecológico. Em alguns locais, existem há mais tempo do que as comunidades humanas nas proximidades.

Localizá-las é o primeiro passo. A seguir vem a proteção. Por agora, muitos destes gigantes continuam quietos sob as ondas, sem serem notados. O tempo conta, mas o esforço para os trazer à luz também.

O estudo completo foi publicado na revista científica Conservação da Natureza.

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