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Os papagaios podem chamar indivíduos específicos pelo nome.

Seis papagaios cinzentos africanos pousados num tronco com folhas verdes ao fundo, iluminados pelo sol.

Em todas as línguas humanas existem nomes próprios, e as crianças aprendem-nos muito cedo. Isso levanta uma questão central para a biologia: será que outros animais conseguem fazer o mesmo?

Não se trata apenas de reconhecer uma voz ou de responder quando são chamados. O ponto essencial é saber se os animais conseguem usar um nome como rótulo para um indivíduo específico.

Um estudo recente, liderado por Lauryn Benedict, da Universidade do Norte do Colorado, analisou esta possibilidade com base num grande conjunto de dados. Em vez de observar animais em liberdade, a equipa centrou-se em papagaios que vivem com humanos - aves conhecidas pela capacidade de imitar a fala.

Chamadas na natureza são difíceis de decifrar

Os investigadores contornaram uma dificuldade frequente no estudo da comunicação animal: interpretar vocalizações na natureza é extremamente complicado. Os chamamentos dos animais tendem a ser complexos e, muitas vezes, não é claro o que significam.

“Não podemos concluir que sejam análogas a nomes humanos tanto porque os sinais dos animais são frequentemente tão diferentes como porque não compreendemos a intenção completa por trás dos sinais”, afirmou a coautora do estudo Christine Dahlin, da Universidade de Pittsburgh em Johnstown.

Já os papagaios que convivem com pessoas têm uma vantagem prática: utilizam as nossas palavras.

Muitos papagaios recorrem a nomes próprios

Para recolher dados, os investigadores recorreram a um inquérito online chamado “O que diz a Polly?”. Pediram a tutores de papagaios que partilhassem as palavras e frases que as suas aves diziam.

Receberam informações sobre 1,202 papagaios de 89 espécies. Desses, 884 tinham exemplos de fala registados.

Entre estes, 413 papagaios usavam nomes humanos - cerca de 47% - e produziram mais de 800 frases com nomes, abrangendo 63 espécies.

Muitos papagaios não se ficaram por um único nome. Era comum combinarem o próprio nome com nomes de pessoas e de outros animais de companhia.

Uma ave sabia pelo menos nove nomes. Algumas até recorriam a alcunhas, alternando, por exemplo, entre “Quince!” e “O Quincenator”.

Os nomes aparecem sobretudo em momentos sociais (papagaios)

O nome mais frequente na fala dos papagaios era o deles próprios. A seguir, surgiam com frequência nomes de pessoas, de outras aves e de animais como cães.

Houve ainda um padrão curioso: não existiam relatos de papagaios a usar nomes de lugares.

A equipa considera que isto espelha a forma como os humanos falam na presença das aves. As pessoas repetem muitas vezes o nome de um papagaio, mas raramente usam nomes de locais nas interações do dia a dia com eles.

Os investigadores classificaram cada frase por contextos como saudação, separação, procura de atenção e pedido. Os resultados apoiam a ideia de que os nomes funcionam como ferramentas de gestão da vida social.

Os papagaios usavam nomes para cumprimentar, para assinalar despedidas à hora de dormir e para fazer com que os humanos levantassem os olhos do sofá. Utilizações não sociais eram pouco comuns.

Evidência sólida de “dar nomes”

O estudo concentrou-se em perceber se os papagaios aplicavam nomes de forma significativa. Primeiro, os investigadores procuraram uso “apropriado” de nomes.

Isto significava empregar um nome para o indivíduo certo - por exemplo, dizer a um cão chamado Rufus para se calar.

Depois, procuraram uso “individualizado”, um critério mais exigente. Aqui, o papagaio tinha de usar um nome apenas para um indivíduo específico, sem aplicar o mesmo nome a um grupo ou a uma categoria.

No total, 88 aves de 30 espécies mostraram uso apropriado de nomes, ou seja, aplicavam-nos corretamente a indivíduos concretos.

Dentro desse grupo, 42 aves de 19 espécies apresentaram uso individualizado: utilizavam o nome exclusivamente para um indivíduo, e não para um conjunto de seres.

Alguns casos destacaram-se. Uma ave dizia “boa noite [nome]” a cada companheiro do bando quando iam dormir. Pelo menos dez aves pediam por uma pessoa pelo nome apenas quando essa pessoa não estava presente.

Isto sugere que podem compreender que os indivíduos continuam a existir mesmo quando não estão visíveis. Os investigadores afirmam que os resultados são compatíveis com a ideia de que os animais conseguem usar nomes como rótulos vocais.

Papagaios-cinzentos-africanos em destaque

Entre as espécies com dados suficientes, os papagaios-cinzentos-africanos destacaram-se.

Cerca de 67% deles usavam nomes corretamente. Aproximadamente 38% mostravam uso individualizado, um valor bastante acima do observado noutras espécies.

Este resultado está alinhado com investigação anterior sobre papagaios-cinzentos. Grande parte desse trabalho foi conduzido por Irene Pepperberg com a sua ave bem conhecida, Alex.

Nem todas as aves usavam nomes como seria esperado. Muitos papagaios diziam o próprio nome quando queriam atenção. Também era frequente usarem expressões como “Olá Polly” ao dirigirem-se aos humanos.

Os investigadores salientam que este comportamento é semelhante ao de crianças pequenas. Chama-se ileísmo, quando alguém se refere a si próprio pelo nome. As crianças fazem-no muitas vezes porque ainda estão a aprender a usar pronomes.

Perguntas em aberto para investigação futura

Dahlin refere que o estudo indica que os papagaios têm a capacidade cognitiva e vocal para empregar nomes de várias maneiras. Conseguem usar nomes para comunicar com pessoas e até para se referirem a alguém que não está presente.

Ao mesmo tempo, existe grande variação entre espécies. Mesmo dentro da mesma espécie, as aves não se comportam todas da mesma forma. Isto deixa em aberto muitas questões sobre como e porquê os animais usam nomes.

Assim, da próxima vez que um papagaio o cumprimentar pelo nome, pode não estar apenas a repetir um som. Pode estar a recorrer a uma forma básica de comunicação social - algo em que os humanos se apoiam há muito tempo.

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