Investigadores relatam que minúsculas pontas de pedra provenientes de um abrigo com 80 000 anos no Uzbequistão foram concebidas como pontas de flecha, e não como lascas sobrantes ou pontas de lança.
Se esta interpretação estiver correcta, a caça com arco e flecha na Eurásia recua 25 000 anos em relação às provas francesas mais conhecidas.
Ferramentas encontradas no Uzbequistão
Nas camadas mais profundas de Obi-Rakhmat, um abrigo rochoso no nordeste do Uzbequistão, a equipa identificou 20 fragmentos de pedra partidos que mostram sinais de utilização, em vez de serem apenas peças inacabadas.
A partir desses restos, Hugues Plisson, da University of Bordeaux, registou cicatrizes de impacto que os associam a armas de caça.
Alguns dos exemplares mais pequenos eram tão estreitos e leves que o seu desenho só parece compatível com hastes do tipo flecha.
O passo mais difícil, contudo, é demonstrar que essas marcas resultam de impacto e não das muitas outras formas como a pedra pode fracturar.
Interpretar os danos
Pontas esmagadas, fracturas laterais e extremidades partidas são relevantes, porque a lascagem acidental tende a produzir traços diferentes.
Quando uma ponta rápida atinge carne e, de seguida, osso, a pressão propaga-se a partir da ponta e força a pedra a flectir.
Em testes, pontas replicadas montadas em hastes finas de madeira partiram-se de modo semelhante quando um arco modesto as lançou contra uma carcaça de animal.
Ainda assim, os sinais de impacto nunca funcionam como impressões digitais perfeitas, já que o talhe, a queda e o fabrico de ferramentas podem imitá-los.
Diversidade nas ferramentas de caça
Dentro deste pequeno conjunto, os investigadores distinguiram pontas maiores, pontas mais pequenas e lamelas - lascas muito estreitas, que poderão ter servido para revestir arestas.
As peças de maiores dimensões eram relativamente largas e exibiam esmagamento compatível com golpes mais duros e pesados.
Várias das pontas mais pequenas eram muito mais estreitas e muito mais leves, aproximando-se de inserções delicadas em vez de pontas robustas de lança.
As lamelas continuam a ser a categoria mais incerta, mas sugerem que os caçadores poderão ter combinado vários elementos cortantes numa única arma.
Porque é que as flechas fazem sentido em Obi-Rakhmat
As pontas estreitas são importantes porque um disparo a longa distância transporta menos força do que uma lança empurrada à mão ou um dardo pesado.
Se o gume abrir a pele de forma limpa, uma haste fina avança com menor atrito e desperdiça menos energia.
Os micropontos de Obi-Rakhmat - pequenas pontas de pedra feitas a partir de lascas diminutas - ajustam-se de forma invulgarmente boa a essa lógica de baixa massa.
Dardos de zarabatana e armas infantis encaixam muito pior: as pedras são demasiado largas para a primeira hipótese e demasiado exigentes em destreza para a segunda.
Não é brincadeira de crianças
Uma explicação alternativa propõe que as pontas mais pequenas seriam peças de treino, feitas por crianças, ou por adultos a mostrar habilidade no local de trabalho.
Essa leitura perde força porque os objectos não parecem mal executados e a sua produção sugere controlo apurado e prática.
Além disso, não são simples miniaturas das pontas maiores, que seguem trajectórias algo diferentes de modelação e uso.
Atribuí-las a uma função de caça explica mais indícios com menos pressupostos, o que tende a ser a opção mais prudente em arqueologia.
Ecos em França
Um local chamado Mandrin, no sul de França, contém pequenas pontas de projéctil datadas de cerca de 54 000 anos.
Os investigadores já tinham associado essas peças ao uso de arco e flecha, o que faz com que Obi-Rakhmat pareça menos um acaso e mais parte de uma continuidade.
A semelhança é relevante porque ambos os sítios juntam pontas maiores a inserções muito menores, em vez de dependerem de um único formato de caça.
Mesmo assim, ninguém consegue traçar uma ligação directa entre eles, e a comparação permanece sugestiva, não definitiva.
Evidência entre regiões
Muito mais a sul, Sibudu, na África do Sul, apresenta evidência robusta de caça com arco e flecha por volta de 64 000 anos.
As ferramentas de lá, porém, têm outro aspecto, o que indica que Obi-Rakhmat poderá representar uma solução independente e não um descendente directo.
Trabalhos genéticos no Planalto Iraniano situam nas proximidades um grande centro humano entre aproximadamente 70 000 e 45 000 anos.
Isto não identifica quem fabricou os arcos, mas coloca a Ásia Central num ponto plausível de uma narrativa mais ampla.
Fabricantes das ferramentas ainda incertos
Os ossos humanos recuperados no abrigo tornam tudo mais complexo: uma criança encontrada no local tinha dentes de tipo neandertal e características cranianas menos conclusivas.
Essa combinação mantém em aberto a identidade dos fabricantes, embora pontas pequenas e especializadas de caça sejam mais frequentemente associadas a Homo sapiens.
Por isso, os autores tratam as flechas em Obi-Rakhmat como uma hipótese de trabalho, e não como uma conclusão confirmada sobre quem as produziu.
Visto assim, as pedras podem falar mais de conhecimento partilhado do que de uma população bem delimitada.
Próximas pistas necessárias
Muito depende agora de se aparecerem pontos minúsculos semelhantes noutros locais entre a Ásia Central e o Mediterrâneo ocidental.
Novas camadas em Obi-Rakhmat poderão indicar se esta mistura de armas persistiu durante milénios ou se pertenceu apenas aos ocupantes mais antigos.
Evidência genética ou proteica do abrigo também tornaria a história humana mais nítida, ao ligar as ferramentas de forma mais firme aos seus autores.
Até lá, a afirmação mais sólida não é a certeza, mas sim um método mais claro para reconhecer flechas antigas no registo arqueológico.
Uma história mais longa
Obi-Rakhmat parece agora menos uma gruta estranha cheia de fragmentos partidos e mais um lugar onde a tecnologia de caça se tornou mais complexa.
Quer os autores fossem humanos modernos, neandertais ou uma população mista, a descoberta obriga a repensar narrativas antigas sobre as primeiras armas.
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